
20.01.2026
Adriana, Marta e Louise: Uma Celebração no Feminino com a Flauta de Adriana Ferreira
Entrevista por Rui Baeta
O Regresso e a Estreia
Adriana, bem-vinda ao Algarve! Esta é a sua estreia com a Orquestra do Algarve. O que lhe passou pela cabeça quando recebeu este convite?
Fiquei muito feliz e curiosa. Já estive várias vezes no Algarve, mas nunca em trabalho. Por isso, este convite representa uma oportunidade muito especial de finalmente conhecer a Orquestra do Algarve por dentro e descobrir, como intérprete, espaços tão diferentes como o Teatro das Figuras e a Igreja Matriz de Messines.
Roma é agora a sua "casa" musical. De que forma o sol de Itália e o ambiente da Santa Cecilia influenciam a forma como toca hoje uma peça italiana como a de Respighi, que abre o concerto?
O que realmente influencia a forma como toco esse repertório é a tradição musical e a conceção de som das orquestras italianas. A ópera é absolutamente central na cultura musical do país, e isso reflete-se também na forma como as orquestras tocam.
Respighi é um caso muito particular: é um dos poucos grandes compositores italianos que construiu um repertório sinfónico verdadeiramente identitário, como Pini di Roma ou Fontane di Roma, obras que foram estreadas pela própria Accademia di Santa Cecilia. Esse repertório moldou profundamente o som da orquestra e a nossa relação com a música italiana.
Por isso, tocar Respighi em Roma, e dentro desta tradição, influencia inevitavelmente a minha abordagem. Se não tocasse na orquestra de Santa Cecilia, estou certa de que ouviria e tocaria esta música de uma forma diferente.
O concerto chama-se "Adriana, Marta e Louise". Sente que há uma "energia de palco" diferente quando o protagonismo é inteiramente feminino?
Não sinto que exista uma energia de palco diferente pelo facto de o protagonismo ser feminino. A música, em si, não muda por quem a interpreta ou a assina. Mas é precisamente porque isso não deveria fazer diferença que, durante muito tempo, fez e de forma injusta.
Durante séculos, as compositoras e muitas intérpretes não tiveram acesso às mesmas oportunidades, visibilidade ou condições de trabalho. Dar hoje destaque a mulheres, como acontece neste concerto, não é criar uma exceção artística, mas tornar visível uma realidade que esteve ausente do discurso musical durante demasiado tempo.
Este pensamento está também ligado a projetos em que estou envolvida fora do palco, como a coleção Prix sans Prix, editada pela Codax, dedicada à divulgação de repertório de compositoras. O primeiro CD, já editado, reúne obras de compositoras francesas laureadas do Prix de Rome, gravadas com a pianista Isolda Crespi. Para além de Lili Boulanger, muitas destas compositoras foram figuras importantes no seu tempo, mas acabaram por cair no esquecimento. O segundo e último CD, a ser publicado este ano, é dedicado a compositoras menos representadas nos grandes centros musicais europeus, com repertório para flauta e harpa, em colaboração com a harpista Silvia Podrecca.
Mozart: O Desafio da Transparência
O Concerto em Sol Maior (K.313) de Mozart é um "exame" para qualquer flautista. Qual é, para si, a passagem mais traiçoeira e a mais prazerosa?
Embora este concerto seja muitas vezes visto como um exame para qualquer flautista, pode também ser entendido, antes de mais, como um grande concerto para solista e orquestra. Tento abordá-lo sempre da forma mais musical possível, pensando muitas vezes na ópera, para que o discurso seja o menos instrumental e o mais musical possível.
Talvez por isso não costumo pensar nesta obra em termos de passagens isoladas. O verdadeiro desafio está em manter a transparência, a leveza e a naturalidade do discurso ao longo de todo o concerto, sem que a técnica se imponha à música.
É algo que refiro muitas vezes quando dou aulas: Mozart não escreveu este concerto a pensar em provas de orquestra, audições ou concursos, mas para ser tocado em concerto, em diálogo com a orquestra e perante um público.
No Adagio, Mozart pede uma sensibilidade quase vocal. Como é que "faz cantar" a flauta de acordo com a natureza do espaço, e acústica, onde toca?
Adaptar-se à acústica é algo que faz parte do nosso trabalho e que acontece de forma bastante natural. Não tocamos sempre nas mesmas salas, nem com as mesmas formações, e isso obriga-nos a ajustar constantemente o som, o equilíbrio e a projeção. No caso deste concerto, trata-se de uma obra para flauta e orquestra com uma instrumentação relativamente contida, maioritariamente de cordas, o que, dentro do estilo da época, pede uma grande atenção à transparência e ao equilíbrio.
Vamos tocar esta obra em dois espaços com características acústicas muito diferentes, e é importante que essas adaptações sirvam sempre o mesmo objetivo: que o resultado seja o mais fiel possível à partitura e que o público possa escutar o discurso musical com clareza.
No Adagio, em particular, penso muitas vezes na ópera de Mozart. A ideia é fazer a flauta cantar de forma lírica e natural, ajustando a respiração, a articulação e a cor do som ao espaço em que nos encontramos, para que a música chegue ao público da forma mais direta e expressiva possível.
O Rondo em Dó Maior (K.373) também faz parte do programa. Como é que estas duas obras de Mozart comunicarão entre si no concerto?
As duas obras pertencem praticamente ao mesmo período criativo. O Rondó em Dó Maior, originalmente escrito para violino, surge pouco tempo depois do Concerto em Sol Maior para flauta.
O próprio Concerto para flauta termina com um rondó, e por isso ouvir estas duas peças no mesmo programa cria uma continuidade muito natural. É quase como se o Rondó funcionasse como um prolongamento do concerto — um pequeno “extra”, um momento adicional que surge depois de o discurso principal estar concluído.
Mais do que um contraste, trata-se de colocar lado a lado duas páginas muito próximas no tempo, permitindo ao público ouvir Mozart num mesmo momento da sua criação, sob perspetivas ligeiramente diferentes.
Para os jovens estudantes de música que vão estar na plateia em Messines e em Faro: qual é o segredo para não deixar Mozart soar "mecânico"?
Talvez o segredo seja lembrar constantemente o contexto para o qual esta música foi escrita. Este concerto não nasceu para audições, provas ou concursos, mas para ser tocado em concerto, em diálogo com uma orquestra e perante um público.
É natural que muitos estudantes trabalhem esta obra ao longo de vários anos e em diferentes fases da sua formação, muitas vezes em contextos de avaliação. Esse percurso prolongado pode, por vezes, levar a uma abordagem mais automática ou mecânica. O desafio está precisamente em evitar isso. Pensar sempre no discurso musical, na frase, na respiração e na intenção por detrás de cada gesto ajuda a manter Mozart vivo, flexível e expressivo. Quando a prioridade é comunicar música, o risco de soar mecânico diminui naturalmente.
Louise Farrenc e o Papel da Mulher
Vamos falar de Louise Farrenc. Ela foi uma força da natureza no século XIX, mas esteve "escondida" muito tempo. Como flautista, o que mais a fascina na escrita dela para sopros?
Curiosamente, ainda não tive oportunidade de tocar obras de Louise Farrenc (salvo erro), mas é uma compositora cujo repertório me interessa bastante. Há duas obras em particular que gostaria muito de explorar no futuro: o sexteto com piano e o trio com violoncelo e piano.
O que me fascina na escrita de Farrenc para os sopros é a forma como a música soa sempre extremamente elegante e leve, mesmo quando é virtuosa. Essa qualidade não é apenas uma questão técnica, mas está profundamente ligada ao estilo da época e a uma escrita muito cuidada, que valoriza o equilíbrio, a clareza e o diálogo entre os instrumentos.
É uma música que nunca pesa, que nunca se impõe de forma excessiva, e que exige do intérprete precisamente isso: refinamento, escuta e sentido de conjunto. É essa elegância que torna a sua escrita tão apelativa.
Acha que programar Farrenc ao lado de Mozart é uma forma de fazer justiça histórica?
Creio que é algo absolutamente natural. Programar Farrenc ao lado de Mozart faz sentido como uma continuação de um percurso estético e estilístico, colocando um compositor do romantismo no seguimento do classicismo.
No caso de Louise Farrenc, a sua música não teve, durante muito tempo, a mesma presença contínua no repertório que a de muitos dos seus contemporâneos. Integrar Farrenc neste contexto é, acima de tudo, devolver a sua obra ao lugar que lhe corresponde no repertório.
Como tem sido a "química" com a maestra Marta Kluczyńska? Já tinham cruzado caminhos ou esta é uma descoberta mútua?
Ainda não tivemos oportunidade de trabalhar juntas, por isso este será o nosso primeiro encontro musical. Estou muito curiosa por conhecê-la e por trabalhar com ela e com a Orquestra do Algarve. Será um prazer descobrir este projeto em conjunto.
Bastidores e Performance
Tocar numa Igreja Matriz pode eventualmente trazer uma proximidade maior com as pessoas. Prefere esse calor humano ou o distanciamento de uma grande sala de concertos como o Teatro das Figuras?
Acho muito importante que se façam concertos em igrejas, sobretudo porque em muitas localidades são o único espaço disponível para a música ao vivo. São, por isso, uma forma essencial de chegar mais facilmente às pessoas e de levar a música a públicos que, de outra forma, poderiam não ter acesso a concertos.
Do ponto de vista acústico, uma sala de concertos oferece naturalmente outras condições. É um espaço pensado para a música, onde o som se projeta de forma mais clara e equilibrada, o que facilita a comunicação do discurso musical com o público.
Dito isto, creio que ambos os contextos são necessários e complementares. Cada um traz desafios diferentes e exige adaptações, mas ambos cumprem um papel fundamental na vida musical.
A Orquestra do Algarve aposta muito na mediação, como em "Antes do Toque" prevista para o Teatro da Figuras, moderada por mim e para a qual está convidada. Gosta de explicar o que vai tocar ou prefere que a música fale por si?
Muito obrigada pelo convite!
Considero a mediação muito importante. Falo muitas vezes com o público, sobretudo em concertos de música de câmara, para partilhar o contexto das obras e a ideia por detrás do programa.
Esse contacto torna-se ainda mais essencial quando se trata de música contemporânea ou de obras menos conhecidas, ajudando a criar uma maior proximidade e disponibilidade na escuta. No fundo, é uma forma de estabelecer um contacto mais direto com o público e de tornar a experiência do concerto mais partilhada.
Entre viagens, ensaios e concertos, como é que desliga o "chip" de flautista? O que ouve quando quer apenas ser ouvinte?
Para mim é bastante fácil desligar. Antes de ser flautista, sou uma pessoa, e consigo abstrair-me muito bem da música quando não estou a tocar. Gosto muito do silêncio e, curiosamente, tenho alguma dificuldade em ouvir música em casa. Claro que gosto de o fazer, mas em pequenas doses, porque a música já faz parte do meu dia de forma muito intensa.
Como ouvinte, o que mais me dá prazer é ir a concertos. A música clássica continua a ser o que mais procuro, mas tenho também um grande interesse pela improvisação. Sobretudo, gosto de ouvir repertório que não conheço, pela experiência estética de o descobrir ao vivo, que para mim é sempre a forma mais forte e mais genuína de escutar música.
Futuro e Reflexão
Se pudesse convidar a Louise Farrenc para um café depois do concerto, o que lhe perguntaria?
Perguntar-lhe-ia como foi ser compositora num meio maioritariamente masculino e como viveu esse contexto ao longo da sua carreira. Tendo em conta que o seu marido era flautista, teria também muita curiosidade em saber como foi tocar com ele e se a forma como ele tocava teve alguma influência na sua escrita para flauta.
Por fim, gostaria de saber o que sente ao ver a sua música voltar a ser tocada e redescoberta hoje e ficaria muito curiosa para ouvir as respostas.
Estamos em janeiro de 2026. Que desejos musicais tem para este novo ano que começa?
Desejo, acima de tudo, que a música continue a ser um espaço de paz. Vivemos um tempo complexo e inquieto, e acredito que a música tem um papel fundamental na criação de momentos de escuta, de reflexão e de encontro.
Que este novo ano traga mais tempo para ouvir, para partilhar e para encontrar, através da música, algum equilíbrio e serenidade.
Que mensagem deixa a quem nunca foi a um concerto de música clássica e está a pensar ir ouvi-la?
Diria, antes de mais, que a música clássica não é um espaço elitista, como muitas vezes se pensa. É um lugar de escuta e de partilha, acessível a todos.
Iniciativas como os projetos de mediação da Orquestra do Algarve são fundamentais, porque ajudam a criar pontes e a tornar a experiência do concerto mais próxima e compreensível, mesmo para quem não tem formação musical.
A música é um espaço de serenidade, de comunhão e de pensamento. Num contexto social e cultural tão complexo como o que vivemos hoje, acredito que precisamos cada vez mais desses momentos de escuta e de encontro.
Há planos para voltarmos a vê-la por cá em breve?
Neste momento não há planos concretos, mas teria todo o gosto em repetir esta experiência no futuro.
Algum ritual ou amuleto que a acompanhe sempre antes de entrar em palco?
Não sou nada supersticiosa e não tenho rituais antes de entrar em palco. O único amuleto que me acompanha sempre é a flauta. Sem ela, de facto, não dava para tocar!
Muito obrigado, caríssima Adriana, foi um gosto falar consigo e tê-la cá para estes concertos extraordinários!
Obrigada eu!
Saiba mais sobre os concertos aqui.
20.01.2026
Adriana, Marta e Louise: Uma Celebração no Feminino com a Flauta de Adriana Ferreira
Entrevista por Rui Baeta
O Regresso e a Estreia
Adriana, bem-vinda ao Algarve! Esta é a sua estreia com a Orquestra do Algarve. O que lhe passou pela cabeça quando recebeu este convite?
Fiquei muito feliz e curiosa. Já estive várias vezes no Algarve, mas nunca em trabalho. Por isso, este convite representa uma oportunidade muito especial de finalmente conhecer a Orquestra do Algarve por dentro e descobrir, como intérprete, espaços tão diferentes como o Teatro das Figuras e a Igreja Matriz de Messines.
Roma é agora a sua "casa" musical. De que forma o sol de Itália e o ambiente da Santa Cecilia influenciam a forma como toca hoje uma peça italiana como a de Respighi, que abre o concerto?
O que realmente influencia a forma como toco esse repertório é a tradição musical e a conceção de som das orquestras italianas. A ópera é absolutamente central na cultura musical do país, e isso reflete-se também na forma como as orquestras tocam.
Respighi é um caso muito particular: é um dos poucos grandes compositores italianos que construiu um repertório sinfónico verdadeiramente identitário, como Pini di Roma ou Fontane di Roma, obras que foram estreadas pela própria Accademia di Santa Cecilia. Esse repertório moldou profundamente o som da orquestra e a nossa relação com a música italiana.
Por isso, tocar Respighi em Roma, e dentro desta tradição, influencia inevitavelmente a minha abordagem. Se não tocasse na orquestra de Santa Cecilia, estou certa de que ouviria e tocaria esta música de uma forma diferente.
O concerto chama-se "Adriana, Marta e Louise". Sente que há uma "energia de palco" diferente quando o protagonismo é inteiramente feminino?
Não sinto que exista uma energia de palco diferente pelo facto de o protagonismo ser feminino. A música, em si, não muda por quem a interpreta ou a assina. Mas é precisamente porque isso não deveria fazer diferença que, durante muito tempo, fez e de forma injusta.
Durante séculos, as compositoras e muitas intérpretes não tiveram acesso às mesmas oportunidades, visibilidade ou condições de trabalho. Dar hoje destaque a mulheres, como acontece neste concerto, não é criar uma exceção artística, mas tornar visível uma realidade que esteve ausente do discurso musical durante demasiado tempo.
Este pensamento está também ligado a projetos em que estou envolvida fora do palco, como a coleção Prix sans Prix, editada pela Codax, dedicada à divulgação de repertório de compositoras. O primeiro CD, já editado, reúne obras de compositoras francesas laureadas do Prix de Rome, gravadas com a pianista Isolda Crespi. Para além de Lili Boulanger, muitas destas compositoras foram figuras importantes no seu tempo, mas acabaram por cair no esquecimento. O segundo e último CD, a ser publicado este ano, é dedicado a compositoras menos representadas nos grandes centros musicais europeus, com repertório para flauta e harpa, em colaboração com a harpista Silvia Podrecca.
Mozart: O Desafio da Transparência
O Concerto em Sol Maior (K.313) de Mozart é um "exame" para qualquer flautista. Qual é, para si, a passagem mais traiçoeira e a mais prazerosa?
Embora este concerto seja muitas vezes visto como um exame para qualquer flautista, pode também ser entendido, antes de mais, como um grande concerto para solista e orquestra. Tento abordá-lo sempre da forma mais musical possível, pensando muitas vezes na ópera, para que o discurso seja o menos instrumental e o mais musical possível.
Talvez por isso não costumo pensar nesta obra em termos de passagens isoladas. O verdadeiro desafio está em manter a transparência, a leveza e a naturalidade do discurso ao longo de todo o concerto, sem que a técnica se imponha à música.
É algo que refiro muitas vezes quando dou aulas: Mozart não escreveu este concerto a pensar em provas de orquestra, audições ou concursos, mas para ser tocado em concerto, em diálogo com a orquestra e perante um público.
No Adagio, Mozart pede uma sensibilidade quase vocal. Como é que "faz cantar" a flauta de acordo com a natureza do espaço, e acústica, onde toca?
Adaptar-se à acústica é algo que faz parte do nosso trabalho e que acontece de forma bastante natural. Não tocamos sempre nas mesmas salas, nem com as mesmas formações, e isso obriga-nos a ajustar constantemente o som, o equilíbrio e a projeção. No caso deste concerto, trata-se de uma obra para flauta e orquestra com uma instrumentação relativamente contida, maioritariamente de cordas, o que, dentro do estilo da época, pede uma grande atenção à transparência e ao equilíbrio.
Vamos tocar esta obra em dois espaços com características acústicas muito diferentes, e é importante que essas adaptações sirvam sempre o mesmo objetivo: que o resultado seja o mais fiel possível à partitura e que o público possa escutar o discurso musical com clareza.
No Adagio, em particular, penso muitas vezes na ópera de Mozart. A ideia é fazer a flauta cantar de forma lírica e natural, ajustando a respiração, a articulação e a cor do som ao espaço em que nos encontramos, para que a música chegue ao público da forma mais direta e expressiva possível.
O Rondo em Dó Maior (K.373) também faz parte do programa. Como é que estas duas obras de Mozart comunicarão entre si no concerto?
As duas obras pertencem praticamente ao mesmo período criativo. O Rondó em Dó Maior, originalmente escrito para violino, surge pouco tempo depois do Concerto em Sol Maior para flauta.
O próprio Concerto para flauta termina com um rondó, e por isso ouvir estas duas peças no mesmo programa cria uma continuidade muito natural. É quase como se o Rondó funcionasse como um prolongamento do concerto — um pequeno “extra”, um momento adicional que surge depois de o discurso principal estar concluído.
Mais do que um contraste, trata-se de colocar lado a lado duas páginas muito próximas no tempo, permitindo ao público ouvir Mozart num mesmo momento da sua criação, sob perspetivas ligeiramente diferentes.
Para os jovens estudantes de música que vão estar na plateia em Messines e em Faro: qual é o segredo para não deixar Mozart soar "mecânico"?
Talvez o segredo seja lembrar constantemente o contexto para o qual esta música foi escrita. Este concerto não nasceu para audições, provas ou concursos, mas para ser tocado em concerto, em diálogo com uma orquestra e perante um público.
É natural que muitos estudantes trabalhem esta obra ao longo de vários anos e em diferentes fases da sua formação, muitas vezes em contextos de avaliação. Esse percurso prolongado pode, por vezes, levar a uma abordagem mais automática ou mecânica. O desafio está precisamente em evitar isso. Pensar sempre no discurso musical, na frase, na respiração e na intenção por detrás de cada gesto ajuda a manter Mozart vivo, flexível e expressivo. Quando a prioridade é comunicar música, o risco de soar mecânico diminui naturalmente.
Louise Farrenc e o Papel da Mulher
Vamos falar de Louise Farrenc. Ela foi uma força da natureza no século XIX, mas esteve "escondida" muito tempo. Como flautista, o que mais a fascina na escrita dela para sopros?
Curiosamente, ainda não tive oportunidade de tocar obras de Louise Farrenc (salvo erro), mas é uma compositora cujo repertório me interessa bastante. Há duas obras em particular que gostaria muito de explorar no futuro: o sexteto com piano e o trio com violoncelo e piano.
O que me fascina na escrita de Farrenc para os sopros é a forma como a música soa sempre extremamente elegante e leve, mesmo quando é virtuosa. Essa qualidade não é apenas uma questão técnica, mas está profundamente ligada ao estilo da época e a uma escrita muito cuidada, que valoriza o equilíbrio, a clareza e o diálogo entre os instrumentos.
É uma música que nunca pesa, que nunca se impõe de forma excessiva, e que exige do intérprete precisamente isso: refinamento, escuta e sentido de conjunto. É essa elegância que torna a sua escrita tão apelativa.
Acha que programar Farrenc ao lado de Mozart é uma forma de fazer justiça histórica?
Creio que é algo absolutamente natural. Programar Farrenc ao lado de Mozart faz sentido como uma continuação de um percurso estético e estilístico, colocando um compositor do romantismo no seguimento do classicismo.
No caso de Louise Farrenc, a sua música não teve, durante muito tempo, a mesma presença contínua no repertório que a de muitos dos seus contemporâneos. Integrar Farrenc neste contexto é, acima de tudo, devolver a sua obra ao lugar que lhe corresponde no repertório.
Como tem sido a "química" com a maestra Marta Kluczyńska? Já tinham cruzado caminhos ou esta é uma descoberta mútua?
Ainda não tivemos oportunidade de trabalhar juntas, por isso este será o nosso primeiro encontro musical. Estou muito curiosa por conhecê-la e por trabalhar com ela e com a Orquestra do Algarve. Será um prazer descobrir este projeto em conjunto.
Bastidores e Performance
Tocar numa Igreja Matriz pode eventualmente trazer uma proximidade maior com as pessoas. Prefere esse calor humano ou o distanciamento de uma grande sala de concertos como o Teatro das Figuras?
Acho muito importante que se façam concertos em igrejas, sobretudo porque em muitas localidades são o único espaço disponível para a música ao vivo. São, por isso, uma forma essencial de chegar mais facilmente às pessoas e de levar a música a públicos que, de outra forma, poderiam não ter acesso a concertos.
Do ponto de vista acústico, uma sala de concertos oferece naturalmente outras condições. É um espaço pensado para a música, onde o som se projeta de forma mais clara e equilibrada, o que facilita a comunicação do discurso musical com o público.
Dito isto, creio que ambos os contextos são necessários e complementares. Cada um traz desafios diferentes e exige adaptações, mas ambos cumprem um papel fundamental na vida musical.
A Orquestra do Algarve aposta muito na mediação, como em "Antes do Toque" prevista para o Teatro da Figuras, moderada por mim e para a qual está convidada. Gosta de explicar o que vai tocar ou prefere que a música fale por si?
Muito obrigada pelo convite!
Considero a mediação muito importante. Falo muitas vezes com o público, sobretudo em concertos de música de câmara, para partilhar o contexto das obras e a ideia por detrás do programa.
Esse contacto torna-se ainda mais essencial quando se trata de música contemporânea ou de obras menos conhecidas, ajudando a criar uma maior proximidade e disponibilidade na escuta. No fundo, é uma forma de estabelecer um contacto mais direto com o público e de tornar a experiência do concerto mais partilhada.
Entre viagens, ensaios e concertos, como é que desliga o "chip" de flautista? O que ouve quando quer apenas ser ouvinte?
Para mim é bastante fácil desligar. Antes de ser flautista, sou uma pessoa, e consigo abstrair-me muito bem da música quando não estou a tocar. Gosto muito do silêncio e, curiosamente, tenho alguma dificuldade em ouvir música em casa. Claro que gosto de o fazer, mas em pequenas doses, porque a música já faz parte do meu dia de forma muito intensa.
Como ouvinte, o que mais me dá prazer é ir a concertos. A música clássica continua a ser o que mais procuro, mas tenho também um grande interesse pela improvisação. Sobretudo, gosto de ouvir repertório que não conheço, pela experiência estética de o descobrir ao vivo, que para mim é sempre a forma mais forte e mais genuína de escutar música.
Futuro e Reflexão
Se pudesse convidar a Louise Farrenc para um café depois do concerto, o que lhe perguntaria?
Perguntar-lhe-ia como foi ser compositora num meio maioritariamente masculino e como viveu esse contexto ao longo da sua carreira. Tendo em conta que o seu marido era flautista, teria também muita curiosidade em saber como foi tocar com ele e se a forma como ele tocava teve alguma influência na sua escrita para flauta.
Por fim, gostaria de saber o que sente ao ver a sua música voltar a ser tocada e redescoberta hoje e ficaria muito curiosa para ouvir as respostas.
Estamos em janeiro de 2026. Que desejos musicais tem para este novo ano que começa?
Desejo, acima de tudo, que a música continue a ser um espaço de paz. Vivemos um tempo complexo e inquieto, e acredito que a música tem um papel fundamental na criação de momentos de escuta, de reflexão e de encontro.
Que este novo ano traga mais tempo para ouvir, para partilhar e para encontrar, através da música, algum equilíbrio e serenidade.
Que mensagem deixa a quem nunca foi a um concerto de música clássica e está a pensar ir ouvi-la?
Diria, antes de mais, que a música clássica não é um espaço elitista, como muitas vezes se pensa. É um lugar de escuta e de partilha, acessível a todos.
Iniciativas como os projetos de mediação da Orquestra do Algarve são fundamentais, porque ajudam a criar pontes e a tornar a experiência do concerto mais próxima e compreensível, mesmo para quem não tem formação musical.
A música é um espaço de serenidade, de comunhão e de pensamento. Num contexto social e cultural tão complexo como o que vivemos hoje, acredito que precisamos cada vez mais desses momentos de escuta e de encontro.
Há planos para voltarmos a vê-la por cá em breve?
Neste momento não há planos concretos, mas teria todo o gosto em repetir esta experiência no futuro.
Algum ritual ou amuleto que a acompanhe sempre antes de entrar em palco?
Não sou nada supersticiosa e não tenho rituais antes de entrar em palco. O único amuleto que me acompanha sempre é a flauta. Sem ela, de facto, não dava para tocar!
Muito obrigado, caríssima Adriana, foi um gosto falar consigo e tê-la cá para estes concertos extraordinários!
Obrigada eu!
Saiba mais sobre os concertos aqui.
