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Tahiti! é uma ‘double bill’ da ópera Trouble in Tahiti (1952) de Leonard Bernstein e de Pacific Pleasures (2016-17) de Alannah Marie Halay com libreto de Jorge Balça. Pacific Pleasures terá a sua estreia nacional com esta produção. Num subúrbio residencial como tantos outros, Tahiti! conta a história de um jovem casal, Sam e Dinah, que descobrem que tudo o que sempre quiseram, não os fez felizes. Têm ainda de encontrar o seu Tahiti. Esta produção recorre a uma variedade de estratégias e ferramentas dramáticas, como teatro físico e teatro de marionetas que, em colaboração com o MAC/CCB, são inspiradas na obra de Paula Rego. Tahiti! imagina uma vida para as duas personagens principais antes da ópera de Bernstein, que começa com uma discussão. Como é que Sam e Dinah se tornaram tão infelizes? E até que ponto as suas vidas já estavam mapeadas antes de eles as começarem a viver? E quanto domínio é que eles realmente têm sobre as suas vidas?   Com este projecto pretende-se levar Tahiti! a territórios, públicos, teatros e auditórios do Algarve onde geralmente o espetáculo operático encenado, não costuma circular. Este é um espectáculo para todos!      Programa   ALANNAH MARIE HALAY (1990) Pacific Pleasures   LEONARD BERNSTEIN (1918-1990) Trouble in Tahiti   Língua: Inglês (com legendagem em português) Duração: 40 minutos + 40 minutos (com 15 minutos de intervalo) Classificação etária: M |16     Ficha Técnica e Artística   Encenação e Cenografia Jorge Balça Direção Musical Pablo Urbina Produção Executiva e Gestão Financeira Sara Lamares / Fadas e Elfos – Associação Cultural Desenho de Luz Wilma Moutinho Operação de Luz (Cineteatro Louletano e Pequeno Auditório Centro Cultural de Belém) Tiago Coelho Figurinos, Adereços e Caracterização Nuno Esteves (Blue) Design e Construção de Marionetas Natacha Costa Pereira / S.A.Marionetas Coordenação de Manipulação de Marionetas José Manuel Valbom Gil, Natacha Costa Pereira, Sofia Olivença Vinagre / S.A. Marionetas Direção de Cena Ana Paula Meneses Correpetição Bernardo Marques Assessoria de Imprensa Ana Abrantes e Sara Battesti Registo de Vídeo Bruno Canas Registo Fotográfico Bruno Simão Tradução e Legendagem Jorge Balça   Elenco: Mezzo-soprano Inês Constantino Barítono Ricardo Panela Barítono Rui Baeta Tenor Leonel Pinheiro Soprano Sofia Marafona Marionetistas Ana Rebelo e Luís Godinho (S.A. Marionetas)   Orquestra: Violinos: Laurentiu Simões, Helena Duarte Viola: Ângela Silva Violoncelo: Mikhail Shumov Contrabaixo: Bruno Carneiro Oboé: Luís Figueiredo Fagote: Catarina Avelãs Flauta: Stefania Bernardi Clarinete: Pedro Nuno Trompete: Jorge Pereira Trompa: André Gomes Percussão: José Ramalho Piano: Bernardo Marques Trombone: André Conde   Coprodução: Fadas e Elfos – Associação Cultural e Orquestra do Algarve     Apoios: Câmara Municipal de Lagoa Câmara Municipal de Loulé Centro Cultural de Belém Câmara Municipal de Lagos Égide - Associação Portuguesa das Artes Junta de Freguesia da Misericórdia      Apoio Institucional: Plano Nacional das Artes Universidade do Algarve     Este projeto é apoiado pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto I DGARTES – Direção-Geral das Artes       Bilhetes > www.bol.pt 15€ (Plateia) | 12€ (Laterais) +Info: (+351) 21 361 26 27   Fadas e Elfos - Associação Cultural e Orquestra do Algarve, Co-Produção
Tahiti!
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17.04sex
20:00Lisboa
Tahiti! é uma ‘double bill’ da ópera Trouble in Tahiti (1952) de Leonard Bernstein e de Pacific Pleasures (2016-17) de Alannah Marie Halay com libreto de Jorge Balça. Pacific Pleasures terá a sua estreia nacional com esta produção. Num subúrbio residencial como tantos outros, Tahiti! conta a história de um jovem casal, Sam e Dinah, que descobrem que tudo o que sempre quiseram, não os fez felizes. Têm ainda de encontrar o seu Tahiti. Esta produção recorre a uma variedade de estratégias e ferramentas dramáticas, como teatro físico e teatro de marionetas que, em colaboração com o MAC/CCB, são inspiradas na obra de Paula Rego. Tahiti! imagina uma vida para as duas personagens principais antes da ópera de Bernstein, que começa com uma discussão. Como é que Sam e Dinah se tornaram tão infelizes? E até que ponto as suas vidas já estavam mapeadas antes de eles as começarem a viver? E quanto domínio é que eles realmente têm sobre as suas vidas?   Com este projecto pretende-se levar Tahiti! a territórios, públicos, teatros e auditórios do Algarve onde geralmente o espetáculo operático encenado, não costuma circular. Este é um espectáculo para todos!      Programa   ALANNAH MARIE HALAY (1990) Pacific Pleasures   LEONARD BERNSTEIN (1918-1990) Trouble in Tahiti   Língua: Inglês (com legendagem em português) Duração: 40 minutos + 40 minutos (com 15 minutos de intervalo) Classificação etária: M |16     Ficha Técnica e Artística   Encenação e Cenografia Jorge Balça Direção Musical Pablo Urbina Produção Executiva e Gestão Financeira Sara Lamares / Fadas e Elfos – Associação Cultural Desenho de Luz Wilma Moutinho Operação de Luz (Cineteatro Louletano e Pequeno Auditório Centro Cultural de Belém) Tiago Coelho Figurinos, Adereços e Caracterização Nuno Esteves (Blue) Design e Construção de Marionetas Natacha Costa Pereira / S.A.Marionetas Coordenação de Manipulação de Marionetas José Manuel Valbom Gil, Natacha Costa Pereira, Sofia Olivença Vinagre / S.A. Marionetas Direção de Cena Ana Paula Meneses Correpetição Bernardo Marques Assessoria de Imprensa Ana Abrantes e Sara Battesti Registo de Vídeo Bruno Canas Registo Fotográfico Bruno Simão Tradução e Legendagem Jorge Balça   Elenco: Mezzo-soprano Inês Constantino Barítono Ricardo Panela Barítono Rui Baeta Tenor Leonel Pinheiro Soprano Sofia Marafona Marionetistas Ana Rebelo e Luís Godinho (S.A. Marionetas)   Orquestra: Violinos: Laurentiu Simões, Helena Duarte Viola: Ângela Silva Violoncelo: Mikhail Shumov Contrabaixo: Bruno Carneiro Oboé: Luís Figueiredo Fagote: Catarina Avelãs Flauta: Stefania Bernardi Clarinete: Pedro Nuno Trompete: Jorge Pereira Trompa: André Gomes Percussão: José Ramalho Piano: Bernardo Marques Trombone: André Conde   Coprodução: Fadas e Elfos – Associação Cultural e Orquestra do Algarve     Apoios: Câmara Municipal de Lagoa Câmara Municipal de Loulé Centro Cultural de Belém Câmara Municipal de Lagos Égide - Associação Portuguesa das Artes Junta de Freguesia da Misericórdia      Apoio Institucional: Plano Nacional das Artes Universidade do Algarve     Este projeto é apoiado pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto I DGARTES – Direção-Geral das Artes       Bilhetes > brevemente à venda em www.bol.pt       Fadas e Elfos - Associação Cultural e Orquestra do Algarve, Co-Produção
Tahiti!
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09.10sex
19:00Lagos
Tahiti! é uma ‘double bill’ da ópera Trouble in Tahiti (1952) de Leonard Bernstein e de Pacific Pleasures (2016-17) de Alannah Marie Halay com libreto de Jorge Balça. Pacific Pleasures terá a sua estreia nacional com esta produção. Num subúrbio residencial como tantos outros, Tahiti! conta a história de um jovem casal, Sam e Dinah, que descobrem que tudo o que sempre quiseram, não os fez felizes. Têm ainda de encontrar o seu Tahiti. Esta produção recorre a uma variedade de estratégias e ferramentas dramáticas, como teatro físico e teatro de marionetas que, em colaboração com o MAC/CCB, são inspiradas na obra de Paula Rego. Tahiti! imagina uma vida para as duas personagens principais antes da ópera de Bernstein, que começa com uma discussão. Como é que Sam e Dinah se tornaram tão infelizes? E até que ponto as suas vidas já estavam mapeadas antes de eles as começarem a viver? E quanto domínio é que eles realmente têm sobre as suas vidas?   Com este projecto pretende-se levar Tahiti! a territórios, públicos, teatros e auditórios do Algarve onde geralmente o espetáculo operático encenado, não costuma circular. Este é um espectáculo para todos!      Programa   ALANNAH MARIE HALAY (1990) Pacific Pleasures   LEONARD BERNSTEIN (1918-1990) Trouble in Tahiti   Língua: Inglês (com legendagem em português) Duração: 40 minutos + 40 minutos (com 15 minutos de intervalo) Classificação etária: M |16     Ficha Técnica e Artística   Encenação e Cenografia Jorge Balça Direção Musical Pablo Urbina Produção Executiva e Gestão Financeira Sara Lamares / Fadas e Elfos – Associação Cultural Desenho de Luz Wilma Moutinho Operação de Luz (Cineteatro Louletano e Pequeno Auditório Centro Cultural de Belém) Tiago Coelho Figurinos, Adereços e Caracterização Nuno Esteves (Blue) Design e Construção de Marionetas Natacha Costa Pereira / S.A.Marionetas Coordenação de Manipulação de Marionetas José Manuel Valbom Gil, Natacha Costa Pereira, Sofia Olivença Vinagre / S.A. Marionetas Direção de Cena Ana Paula Meneses Correpetição Bernardo Marques Assessoria de Imprensa Ana Abrantes e Sara Battesti Registo de Vídeo Bruno Canas Registo Fotográfico Bruno Simão Tradução e Legendagem Jorge Balça   Elenco: Mezzo-soprano Inês Constantino Barítono Ricardo Panela Barítono Rui Baeta Tenor Leonel Pinheiro Soprano Sofia Marafona Marionetistas Ana Rebelo e Luís Godinho (S.A. Marionetas)   Orquestra: Violinos: Laurentiu Simões, Helena Duarte Viola: Ângela Silva Violoncelo: Mikhail Shumov Contrabaixo: Bruno Carneiro Oboé: Luís Figueiredo Fagote: Catarina Avelãs Flauta: Stefania Bernardi Clarinete: Pedro Nuno Trompete: Jorge Pereira Trompa: André Gomes Percussão: José Ramalho Piano: Bernardo Marques Trombone: André Conde   Coprodução: Fadas e Elfos – Associação Cultural e Orquestra do Algarve     Apoios: Câmara Municipal de Lagoa Câmara Municipal de Loulé Centro Cultural de Belém Câmara Municipal de Lagos Égide - Associação Portuguesa das Artes Junta de Freguesia da Misericórdia      Apoio Institucional: Plano Nacional das Artes Universidade do Algarve     Este projeto é apoiado pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto I DGARTES – Direção-Geral das Artes       Bilhetes > www.bol.pt 15€ (Plateia) | 12€ (Laterais) +Info: (+351) 21 361 26 27   Fadas e Elfos - Associação Cultural e Orquestra do Algarve, Co-Produção
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Tahiti!
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09.10sex
19:00Lagos
Uma Orquestra.
Dois Maestros.
Uma Missão.

"À medida que a Orquestra do Algarve embarca nesta nova jornada, estamos a colocar ainda mais foco em vocês, nas pessoas do Algarve, e nesta região maravilhosa. A orquestra deve ser uma peça central da nossa sociedade e, através da música, provocar mudanças e criar um ambiente positivo. Queremos que todas as pessoas encontrem nesta região algo de que se possam orgulhar, cuidar e apoiar."

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Madalena Lopes, flauta solista no concerto "Ecos de Paris"
20.02.2026
Madalena Lopes, flauta solista no concerto "Ecos de Paris"
Entrevista por Rui Baeta
    Cara Madalena, antes de mais, os nossos parabéns pelo percurso artístico que desenvolve com tanta consistencia e sucesso. É para nós um enorme prazer recebê-la para tocar neste concerto. Como descreve a sensação de ser a solista convidada no programa "Ecos de Paris" da Orquestra do Algarve? Fico muito feliz e grata por ter sido convidada para ser solista no programa “Ecos de Paris” da Orquestra do Algarve. É uma oportunidade muito especial para mim, não só pelo prestígio do projeto, mas sobretudo por ser a minha primeira vez a tocar como solista com uma orquestra profissional.É um momento que encaro com grande responsabilidade, mas também com muito entusiasmo, porque sempre vi este tipo de experiências como passos muitos importantes no meu crescimento artístico e pessoal. Trabalhar com músicos experientes, partilhar palco e construir algo em conjunto é algo que me inspira profundamente, poder fazê-lo com a Orquestra do Algarve é um grande prazer.   Deve ser particularmente emocionante estrear em Portugal a Sonata para Flauta de Francis Poulenc na versão orquestrada – poderia partilhar os seus sentimentos sobre isso?Estrear em Portugal a versão orquestrada da Sonata para Flauta de Francis Poulenc é algo que ainda me está a custar assimilar. É uma obra tão especial e tão presente no repertório flautístico que poder apresentá-la pela primeira vez desta forma no nosso país é, ao mesmo tempo, um privilégio enorme e uma grande responsabilidade.Claro que essa responsabilidade continua muito presente nos dias que antecedem os concertos, queremos sempre honrar a obra, o compositor e também o público, mas, sinceramente, o que fala mais alto é o entusiasmo. Há uma excitação muito genuína em poder dar vida a esta versão orquestral e partilhá-la com as pessoas. Para além disso, é uma peça muito delicada. Apesar de a flauta ter momentos de brilho, há uma fragilidade e uma subtileza constantes, e tocar isso com um conjunto orquestral tão grande exige ainda mais atenção, flexibilidade e audição. Para mim, é exatamente esse equilíbrio entre leveza, detalhe e elegância que Poulenc requere que torna esta experiência tão desafiante e ao mesmo tempo tão especial.   Poderia falar-nos um pouco sobre a Sonata para Flauta de Francis Poulenc?A Sonata para Flauta e Piano de Francis Poulenc é uma das obras mais emblemáticas do repertório para flauta. Foi escrita em 1957 e dedicada ao grande flautista francês Jean-Pierre Rampal, que a estreou nesse mesmo ano, no Festival de Strasbourg. Curiosamente, Poulenc confessava que não conhecia profundamente o instrumento quando começou a compor a sonata, e talvez tenha sido por isso que tenha escrito algo tão fresco, espontâneo e natural, explorando a personalidade da flauta de uma forma muito vocal e expressiva.É uma obra que, numa primeira audição e contacto, pode soar leve e simples, com melodias muito claras e elegantes, mas acho que posso falar por todos os flautistas que essa simplicidade é extremamente enganadora. A sonata exige um controlo enorme de som, fraseado, cor, além de uma grande flexibilidade expressiva, onde temos sempre pequenos detalhes a trabalhar, como nuances, articulações e respirações, que fazem toda a diferença.Por vezes, interpretar esta sonata faz-me lembrar a forma como abordamos a música de Wolfgang Amadeus Mozart: tudo parece natural e transparente, mas é precisamente essa transparência que não permite esconder nada, cada intenção fica exposta.O segundo andamento é, sem dúvida, um “tesouro” no repertório flautístico, que é frequentemente tocado de forma isolada, muito famoso pelo seu carácter. Quanto mais tocamos esta obra, mais descobrimos que há sempre “mais qualquer coisa” a dizer.   O que a fascina nesta obra e como acha que ela se enquadra no tema "Ecos de Paris", com toda a sua leveza e cor parisiense?O que mais me fascina nesta obra Poulenc é essa combinação humorística de Poulenc, com elegância, melancolia e cor por detrás de tudo. A música tem um lado espirituoso e quase irreverente, especialmente no Presto giocoso (o 3º andamento da sonata), mas de repente, consegue ser profundamente íntima e nostálgica na Cantinela (2º andamento). Essa dualidade de Poulenc toca-me muito.Dentro do tema “Ecos de Paris”, sinto que esta obra encaixa de forma muito natural. Poulenc faz parte daquela tradição musical francesa em que a clareza, a cor e a transparência são extremamente essenciais. O programa como um todo reforça essa ideia, onde temos a vivacidade elegante e cheia de carácter de Georges Bizet, como a Sinfonia nº 31 “Paris” de Wolfgang Amadeus Mozart, escrita para o público parisiense, e mesmo sendo de uma compositora americana, Rissolty Rossolty de Ruth Crawford Seeger acrescenta uma energia rítmica e uma paleta de cores muito viva, que dialoga bem com esta ideia de contraste e vitalidade.   Como tem decorrido a sua preparação para este concerto?Confesso que tem sido uma preparação bastante diferente do habitual. É uma obra que faz parte da minha lista de repertório praticamente todos os anos, mas adaptá-la à versão orquestral tem sido quase um exercício de imaginação constante.Nas minhas sessões de estudo dei por mim a pensar: como soará esta passagem com este grupo de instrumentos? Como vai funcionar o jogo de timbres e a afinação? Onde é que preciso de respirar, tendo em conta que entro com as madeiras ou com as cordas? São pequenos detalhes que mudam tudo e que, penso que terão de ser ajustados e pensados nos ensaios com a Orquestra do Algarve.Tendo em conta que estamos muito habituados a tocar esta sonata com piano, onde estamos focados unicamente no nosso pianista, aqui a escuta tem de ser muito mais ampla. Isso obrigou-me a ajustar o meu estudo e a pensar a obra de forma mais “orquestral”, o que tem sido desafiante, mas também muito estimulante.   Existe algum aspeto técnico ou interpretativo da peça que se tenha apresentado particularmente desafiante, ou que a tenha deixado ainda mais entusiasmada com a revelação de alguma descoberta?Um dos maiores desafios tem sido mesmo ajustar a cor do meu som ao contexto da orquestra, e ao que penso que será necessário de adaptar quando estiver em ensaio. Com piano, a referência é mais simples; com orquestra, há muito mais cores e camadas a acontecer ao mesmo tempo.Sobretudo nos pianos, tive de aprender a adaptá-los a um som inserido num conjunto muito maior, manter a delicadeza sem que o som desapareça, mas continuar presente. Encontrar esse equilíbrio entre integrar-me na orquestra e, ao mesmo tempo, manter presença, está a ser exigente, tendo em conta que ainda não ensaiei com a Orquestra do Algarve. Ao mesmo tempo, o processo está a ser muito entusiasmante. Esta procura fez-me redescobrir passagens que já conhecia há anos, mas sob uma nova perspetiva. É quase como se a obra ganhasse outra dimensão, e isso é das coisas mais bonitas deste processo.   Como gere a ansiedade antes de um concerto importante como este?Se for completamente honesta… acho que ainda não descobri a fórmula mágica para gerir a ansiedade antes de um concerto! Antes de concertos importantes fico sempre com aquele nervosismo extra, coração a bater mais depressa, mil pensamentos ao mesmo tempo, boca seca, e às vezes a única solução é mesmo aceitar que faz parte.A única coisa que está verdadeiramente no meu controlo é a minha preparação, estudar lentamente, rever detalhes e ter a sensação de que fiz tudo o que podia. Depois, no palco, já não dá para controlar tudo. Na verdade, nunca conseguimos tocar exatamente como idealizámos em casa, mas também acho curioso que é precisamente essa imprevisibilidade que torna cada concerto único e especial.   O seu prémio no Concurso Internacional de Música Júlio Cardona em 2025 foi uma grande conquista. De que forma essa vitória influencia a sua carreira e a leva a outras colaborações como esta, com a Orquestra do Algarve?O prémio no Concurso Internacional de Música Júlio Cardona em 2025 foi, sem dúvida, uma conquista muito especial para mim. Mais do que o reconhecimento em si, senti-o como um sinal de que estava no caminho certo e de que o meu trabalho e resiliência estavam a dar frutos.Num percurso artístico, é fácil termos dúvidas e questionarmo-nos se estamos a fazer as escolhas certas. Este prémio deu-me confiança para continuar a investir em mim e na minha carreira artística. Acredito que distinções como estas acabam também por abrir portas e gerar novas oportunidades, como esta colaboração com a Orquestra do Algarve. No fundo, vejo tudo como parte de um processo: cada experiência reforça a seguinte e motiva-me a continuar a evoluir, sempre com os pés bem assentes na terra. Poderia partilhar uma memória marcante desse concurso?A memória mais marcante do Concurso Internacional de Música Júlio Cardona foi, na verdade, quando terminei de tocar a ronda da final. Foi uma ronda extremamente dura, não só pelo repertório exigente, mas também pelo tempo que tivemos para tocar e pela resistência que era necessária. Quando terminei, lembro-me de pensar: “Não consigo acreditar que consegui tocar isto!” Foi um misto de alívio, choque e felicidade que nunca mais vou esquecer.   Tem integrado orquestras prestigiadas, como a Gustav Mahler JugendOrchester em 2023 e a European Union Youth Orchestra em 2024/2025, atuando em salas icónicas como o Carnegie Hall ou a Elbphilharmonie. Como é que essas experiências internacionais moldam a sua personalidade musical e a abordagem profissional a concertos como este "Ecos de Paris"?Tocar com estas orquestras jovens europeias foi uma experiência que me marcou profundamente. Todas essas salas impõem muito respeito, é impossível não sentir aquela energia e dimensão do espaço, e isso exige atenção, muita concentração e responsabilidade.Do ponto de vista musical, aprendi a ouvir com mais cuidado, a adaptar a minha cor e articulação ao conjunto e a confiar na preparação que fiz. Também percebi como é importante encontrar equilíbrio entre disciplina e espontaneidade: podemos ter tudo estudado, mas cada concerto pede algo único. Para um programa como o Ecos de Paris, toda essa experiência ajuda-me a sentir-me mais segura, a gerir melhor a tensão e a dar espaço à expressividade, para que a música chegue com clareza e emoção ao público.   No programa, incluem-se obras de Bizet, Mozart e Ruth Crawford-Seeger – qual é a sua preferida além da de Poulenc, e porquê?Além da sonata de Francis Poulenc, diria que a minha peça preferida do programa é a Sinfonia nº 31 “Paris” de Wolfgang Amadeus Mozart.Adoro como Mozart consegue combinar brilho e leveza com uma energia contagiante. Cada andamento tem cores e ritmos muito diferentes, e mesmo sendo escrita há tanto tempo, consegue soar fresca e vibrante hoje. É uma daquelas obras em que sentimos imediatamente o génio da escrita orquestral, há espaço para detalhes delicados, mas também momentos de grande impacto, o que a torna divertida e inspiradora de ouvir.   Valoriza a divulgação de compositores diversos e pouco conhecidos ou defende a insistência exclusiva em nomes consagrados?Acho muito importante construir as nossas bases musicais com os grandes mestres da música clássica – como Mozart, Bach, Beethoven – porque é com eles que aprendemos técnica, estilo, profundidade, pois eles são, sem dúvida, os “pilares” da música. Mas, ao mesmo tempo, sinto que há um mundo enorme de compositores menos conhecidos que merece ser explorado. Existem obras incríveis que muitas pessoas nunca ouviram, e dar-lhes uma oportunidade de serem interpretadas é uma forma de manter a música viva, fresca e surpreendente. Para mim, é um equilíbrio: honrar o que já é clássico, mas também abrir portas para novas vozes e novas histórias dentro da música. O que pensa sobre as características do público da música clássica, português e estrangeiro?Tenho notado algumas diferenças interessantes entre o público português e o estrangeiro. Estudando em Madrid e tocando várias vezes em Espanha, percebo que o público, em Espanha, é geralmente mais jovem, mais dinâmico e mais aberto a experimentar coisas novas, mesmo dentro da música clássica. Em Portugal, sinto que ainda existe um público muito dedicado, mas mais tradicional e mais “conservador” nos gostos, o que às vezes pode limitar a programação e a forma como se explora repertório mais diferente do habitual.No estrangeiro, de forma geral, existe também uma oferta cultural muito maior, com mais festivais, concertos e oportunidades para experimentar música de diferentes estilos e épocas. Isso acaba por criar um público mais diverso, que cresce com experiências variadas e está mais habituado a descobrir novas obras ou compositores menos conhecidos. Acho que, para nós, músicos portugueses, é extremamente inspirador perceber essas diferenças, porque nos mostra caminhos para aproximar a música clássica de públicos mais jovens e trazer mais dinamismo à forma como a interpretamos e a apresentamos.   Desde que iniciou os estudos aos 5 anos com a flauta de bisel e aos 8 com a transversal, no Conservatório Nacional de Lisboa, o que a mantém motivada?O que me mantém motivada é a vontade de fazer sempre mais e melhor. Gosto de me desafiar constantemente, explorar novas técnicas, descobrir repertório diferente e superar os obstáculos que surgem no caminho.O que me dá energia é poder transformar todo esse esforço em música para as pessoas que me ouvem, seja nas aulas, nas audições de orquestra ou nos concursos a que me apresento. Cada oportunidade de tocar em público é também uma oportunidade de aprender, de crescer e de sentir a música de forma mais profunda. A paixão por comunicar através da flauta é o que me faz continuar a investir tempo e dedicação todos os dias.   Há algum professor ou mentor que a inspire especialmente, como o Jacques Zoon na Escuela Superior de Música Reina Sofía, ou outro que queira referir?Tenho sido muito inspirada por alguns professores que marcaram o meu percurso como o meu professor atual, Jacques Zoon. Contudo, a minha professora de flauta de toda a vida, a Prof. Solange Silva, ensinou-me não só técnica, mas também a importância de uma rotina de estudo e de criar consistência, algo que se tornou fundamental na minha evolução como musicista.O meu professor assistente, Salvador Martínez, primeira flauta da Orquestra de Valência, trouxe-me uma preparação orquestral enorme, ajudando-me a compreender melhor o trabalho dentro de uma orquestra, a comunicação com os colegas e a sensibilidade que a música coletiva exige.Sinto-me muito sortuda por aprender com professores assim, que não só ensinam a tocar, mas que também mostram como crescer como músico, a perseverar e a sentir a música de forma completa.   Se estivesse a aconselhar um jovem músico que aspira seguir os seus passos, que sugestões lhe daria?Se estivesse a aconselhar um jovem músico, diria que não existe uma fórmula mágica. Eu própria ainda estou a encontrar o meu caminho e os meus objetivos na música. Mas acho que é essencial manter-nos fiéis à nossa própria música e à nossa forma de tocar, mesmo quando surgem desafios.A resiliência é fundamental: temos de trabalhar muito, todos os dias, e não ter medo de tentar atingir objetivos ambiciosos. Quanto mais nos desafiamos, mais crescemos. E acima de tudo, é importante não perder a paixão pelo que fazemos, é essa paixão que nos mantém motivados e nos faz continuar a aprender e a evoluir.   Quais são os seus planos futuros – tournées, gravações, projetos novos?Neste momento, as coisas estão um pouco incertas. Estou a terminar a minha licenciatura em Madrid, a fazer provas de mestrado e também a apresentar-me a audições para academias e lugares de orquestra. É muita coisa ao mesmo tempo, e infelizmente nem sempre se consegue prever o que vai acontecer.O que sei é que estou a dar o meu máximo em todas estas oportunidades, a aprender com cada experiência e a manter-me aberta ao que vier, o foco é estar preparada, tocar o melhor possível e deixar que as oportunidades surjam naturalmente.   Para concluir, que mensagem gostaria de deixar ao público que assistirá a este extraordinário concerto "Ecos de Paris"? Gostaria que cada pessoa que estiver na plateia se deixe levar pela música, que se permita descobrir detalhes novos a cada frase e que saia com a sensação de ter vivido algo especial.   Obrigado, Madalena, pelas suas respostas tão sinceras e interessantes. Ficamos assim a conhecê-la um pouco melhor, o que aumenta o já muito elevado desejo e grande vontade em ir ouvi-la em concerto. Muito sucesso na sua carreira e que esta seja a primeira vez de muitas outras. Obrigado eu! Espero que o público goste da minha versão de Poulenc e que consiga sentir toda a delicadeza, o humor e a emoção que esta obra transmite. Para mim, é uma peça cheia de cor e surpresa, e tocar com a orquestra neste concerto vai ser uma experiência incrível.   Saiba mais sobre os concertos aqui.
20.02.2026
Madalena Lopes, flauta solista no concerto "Ecos de Paris"
Entrevista por Rui Baeta
    Cara Madalena, antes de mais, os nossos parabéns pelo percurso artístico que desenvolve com tanta consistencia e sucesso. É para nós um enorme prazer recebê-la para tocar neste concerto. Como descreve a sensação de ser a solista convidada no programa "Ecos de Paris" da Orquestra do Algarve? Fico muito feliz e grata por ter sido convidada para ser solista no programa “Ecos de Paris” da Orquestra do Algarve. É uma oportunidade muito especial para mim, não só pelo prestígio do projeto, mas sobretudo por ser a minha primeira vez a tocar como solista com uma orquestra profissional.É um momento que encaro com grande responsabilidade, mas também com muito entusiasmo, porque sempre vi este tipo de experiências como passos muitos importantes no meu crescimento artístico e pessoal. Trabalhar com músicos experientes, partilhar palco e construir algo em conjunto é algo que me inspira profundamente, poder fazê-lo com a Orquestra do Algarve é um grande prazer.   Deve ser particularmente emocionante estrear em Portugal a Sonata para Flauta de Francis Poulenc na versão orquestrada – poderia partilhar os seus sentimentos sobre isso?Estrear em Portugal a versão orquestrada da Sonata para Flauta de Francis Poulenc é algo que ainda me está a custar assimilar. É uma obra tão especial e tão presente no repertório flautístico que poder apresentá-la pela primeira vez desta forma no nosso país é, ao mesmo tempo, um privilégio enorme e uma grande responsabilidade.Claro que essa responsabilidade continua muito presente nos dias que antecedem os concertos, queremos sempre honrar a obra, o compositor e também o público, mas, sinceramente, o que fala mais alto é o entusiasmo. Há uma excitação muito genuína em poder dar vida a esta versão orquestral e partilhá-la com as pessoas. Para além disso, é uma peça muito delicada. Apesar de a flauta ter momentos de brilho, há uma fragilidade e uma subtileza constantes, e tocar isso com um conjunto orquestral tão grande exige ainda mais atenção, flexibilidade e audição. Para mim, é exatamente esse equilíbrio entre leveza, detalhe e elegância que Poulenc requere que torna esta experiência tão desafiante e ao mesmo tempo tão especial.   Poderia falar-nos um pouco sobre a Sonata para Flauta de Francis Poulenc?A Sonata para Flauta e Piano de Francis Poulenc é uma das obras mais emblemáticas do repertório para flauta. Foi escrita em 1957 e dedicada ao grande flautista francês Jean-Pierre Rampal, que a estreou nesse mesmo ano, no Festival de Strasbourg. Curiosamente, Poulenc confessava que não conhecia profundamente o instrumento quando começou a compor a sonata, e talvez tenha sido por isso que tenha escrito algo tão fresco, espontâneo e natural, explorando a personalidade da flauta de uma forma muito vocal e expressiva.É uma obra que, numa primeira audição e contacto, pode soar leve e simples, com melodias muito claras e elegantes, mas acho que posso falar por todos os flautistas que essa simplicidade é extremamente enganadora. A sonata exige um controlo enorme de som, fraseado, cor, além de uma grande flexibilidade expressiva, onde temos sempre pequenos detalhes a trabalhar, como nuances, articulações e respirações, que fazem toda a diferença.Por vezes, interpretar esta sonata faz-me lembrar a forma como abordamos a música de Wolfgang Amadeus Mozart: tudo parece natural e transparente, mas é precisamente essa transparência que não permite esconder nada, cada intenção fica exposta.O segundo andamento é, sem dúvida, um “tesouro” no repertório flautístico, que é frequentemente tocado de forma isolada, muito famoso pelo seu carácter. Quanto mais tocamos esta obra, mais descobrimos que há sempre “mais qualquer coisa” a dizer.   O que a fascina nesta obra e como acha que ela se enquadra no tema "Ecos de Paris", com toda a sua leveza e cor parisiense?O que mais me fascina nesta obra Poulenc é essa combinação humorística de Poulenc, com elegância, melancolia e cor por detrás de tudo. A música tem um lado espirituoso e quase irreverente, especialmente no Presto giocoso (o 3º andamento da sonata), mas de repente, consegue ser profundamente íntima e nostálgica na Cantinela (2º andamento). Essa dualidade de Poulenc toca-me muito.Dentro do tema “Ecos de Paris”, sinto que esta obra encaixa de forma muito natural. Poulenc faz parte daquela tradição musical francesa em que a clareza, a cor e a transparência são extremamente essenciais. O programa como um todo reforça essa ideia, onde temos a vivacidade elegante e cheia de carácter de Georges Bizet, como a Sinfonia nº 31 “Paris” de Wolfgang Amadeus Mozart, escrita para o público parisiense, e mesmo sendo de uma compositora americana, Rissolty Rossolty de Ruth Crawford Seeger acrescenta uma energia rítmica e uma paleta de cores muito viva, que dialoga bem com esta ideia de contraste e vitalidade.   Como tem decorrido a sua preparação para este concerto?Confesso que tem sido uma preparação bastante diferente do habitual. É uma obra que faz parte da minha lista de repertório praticamente todos os anos, mas adaptá-la à versão orquestral tem sido quase um exercício de imaginação constante.Nas minhas sessões de estudo dei por mim a pensar: como soará esta passagem com este grupo de instrumentos? Como vai funcionar o jogo de timbres e a afinação? Onde é que preciso de respirar, tendo em conta que entro com as madeiras ou com as cordas? São pequenos detalhes que mudam tudo e que, penso que terão de ser ajustados e pensados nos ensaios com a Orquestra do Algarve.Tendo em conta que estamos muito habituados a tocar esta sonata com piano, onde estamos focados unicamente no nosso pianista, aqui a escuta tem de ser muito mais ampla. Isso obrigou-me a ajustar o meu estudo e a pensar a obra de forma mais “orquestral”, o que tem sido desafiante, mas também muito estimulante.   Existe algum aspeto técnico ou interpretativo da peça que se tenha apresentado particularmente desafiante, ou que a tenha deixado ainda mais entusiasmada com a revelação de alguma descoberta?Um dos maiores desafios tem sido mesmo ajustar a cor do meu som ao contexto da orquestra, e ao que penso que será necessário de adaptar quando estiver em ensaio. Com piano, a referência é mais simples; com orquestra, há muito mais cores e camadas a acontecer ao mesmo tempo.Sobretudo nos pianos, tive de aprender a adaptá-los a um som inserido num conjunto muito maior, manter a delicadeza sem que o som desapareça, mas continuar presente. Encontrar esse equilíbrio entre integrar-me na orquestra e, ao mesmo tempo, manter presença, está a ser exigente, tendo em conta que ainda não ensaiei com a Orquestra do Algarve. Ao mesmo tempo, o processo está a ser muito entusiasmante. Esta procura fez-me redescobrir passagens que já conhecia há anos, mas sob uma nova perspetiva. É quase como se a obra ganhasse outra dimensão, e isso é das coisas mais bonitas deste processo.   Como gere a ansiedade antes de um concerto importante como este?Se for completamente honesta… acho que ainda não descobri a fórmula mágica para gerir a ansiedade antes de um concerto! Antes de concertos importantes fico sempre com aquele nervosismo extra, coração a bater mais depressa, mil pensamentos ao mesmo tempo, boca seca, e às vezes a única solução é mesmo aceitar que faz parte.A única coisa que está verdadeiramente no meu controlo é a minha preparação, estudar lentamente, rever detalhes e ter a sensação de que fiz tudo o que podia. Depois, no palco, já não dá para controlar tudo. Na verdade, nunca conseguimos tocar exatamente como idealizámos em casa, mas também acho curioso que é precisamente essa imprevisibilidade que torna cada concerto único e especial.   O seu prémio no Concurso Internacional de Música Júlio Cardona em 2025 foi uma grande conquista. De que forma essa vitória influencia a sua carreira e a leva a outras colaborações como esta, com a Orquestra do Algarve?O prémio no Concurso Internacional de Música Júlio Cardona em 2025 foi, sem dúvida, uma conquista muito especial para mim. Mais do que o reconhecimento em si, senti-o como um sinal de que estava no caminho certo e de que o meu trabalho e resiliência estavam a dar frutos.Num percurso artístico, é fácil termos dúvidas e questionarmo-nos se estamos a fazer as escolhas certas. Este prémio deu-me confiança para continuar a investir em mim e na minha carreira artística. Acredito que distinções como estas acabam também por abrir portas e gerar novas oportunidades, como esta colaboração com a Orquestra do Algarve. No fundo, vejo tudo como parte de um processo: cada experiência reforça a seguinte e motiva-me a continuar a evoluir, sempre com os pés bem assentes na terra. Poderia partilhar uma memória marcante desse concurso?A memória mais marcante do Concurso Internacional de Música Júlio Cardona foi, na verdade, quando terminei de tocar a ronda da final. Foi uma ronda extremamente dura, não só pelo repertório exigente, mas também pelo tempo que tivemos para tocar e pela resistência que era necessária. Quando terminei, lembro-me de pensar: “Não consigo acreditar que consegui tocar isto!” Foi um misto de alívio, choque e felicidade que nunca mais vou esquecer.   Tem integrado orquestras prestigiadas, como a Gustav Mahler JugendOrchester em 2023 e a European Union Youth Orchestra em 2024/2025, atuando em salas icónicas como o Carnegie Hall ou a Elbphilharmonie. Como é que essas experiências internacionais moldam a sua personalidade musical e a abordagem profissional a concertos como este "Ecos de Paris"?Tocar com estas orquestras jovens europeias foi uma experiência que me marcou profundamente. Todas essas salas impõem muito respeito, é impossível não sentir aquela energia e dimensão do espaço, e isso exige atenção, muita concentração e responsabilidade.Do ponto de vista musical, aprendi a ouvir com mais cuidado, a adaptar a minha cor e articulação ao conjunto e a confiar na preparação que fiz. Também percebi como é importante encontrar equilíbrio entre disciplina e espontaneidade: podemos ter tudo estudado, mas cada concerto pede algo único. Para um programa como o Ecos de Paris, toda essa experiência ajuda-me a sentir-me mais segura, a gerir melhor a tensão e a dar espaço à expressividade, para que a música chegue com clareza e emoção ao público.   No programa, incluem-se obras de Bizet, Mozart e Ruth Crawford-Seeger – qual é a sua preferida além da de Poulenc, e porquê?Além da sonata de Francis Poulenc, diria que a minha peça preferida do programa é a Sinfonia nº 31 “Paris” de Wolfgang Amadeus Mozart.Adoro como Mozart consegue combinar brilho e leveza com uma energia contagiante. Cada andamento tem cores e ritmos muito diferentes, e mesmo sendo escrita há tanto tempo, consegue soar fresca e vibrante hoje. É uma daquelas obras em que sentimos imediatamente o génio da escrita orquestral, há espaço para detalhes delicados, mas também momentos de grande impacto, o que a torna divertida e inspiradora de ouvir.   Valoriza a divulgação de compositores diversos e pouco conhecidos ou defende a insistência exclusiva em nomes consagrados?Acho muito importante construir as nossas bases musicais com os grandes mestres da música clássica – como Mozart, Bach, Beethoven – porque é com eles que aprendemos técnica, estilo, profundidade, pois eles são, sem dúvida, os “pilares” da música. Mas, ao mesmo tempo, sinto que há um mundo enorme de compositores menos conhecidos que merece ser explorado. Existem obras incríveis que muitas pessoas nunca ouviram, e dar-lhes uma oportunidade de serem interpretadas é uma forma de manter a música viva, fresca e surpreendente. Para mim, é um equilíbrio: honrar o que já é clássico, mas também abrir portas para novas vozes e novas histórias dentro da música. O que pensa sobre as características do público da música clássica, português e estrangeiro?Tenho notado algumas diferenças interessantes entre o público português e o estrangeiro. Estudando em Madrid e tocando várias vezes em Espanha, percebo que o público, em Espanha, é geralmente mais jovem, mais dinâmico e mais aberto a experimentar coisas novas, mesmo dentro da música clássica. Em Portugal, sinto que ainda existe um público muito dedicado, mas mais tradicional e mais “conservador” nos gostos, o que às vezes pode limitar a programação e a forma como se explora repertório mais diferente do habitual.No estrangeiro, de forma geral, existe também uma oferta cultural muito maior, com mais festivais, concertos e oportunidades para experimentar música de diferentes estilos e épocas. Isso acaba por criar um público mais diverso, que cresce com experiências variadas e está mais habituado a descobrir novas obras ou compositores menos conhecidos. Acho que, para nós, músicos portugueses, é extremamente inspirador perceber essas diferenças, porque nos mostra caminhos para aproximar a música clássica de públicos mais jovens e trazer mais dinamismo à forma como a interpretamos e a apresentamos.   Desde que iniciou os estudos aos 5 anos com a flauta de bisel e aos 8 com a transversal, no Conservatório Nacional de Lisboa, o que a mantém motivada?O que me mantém motivada é a vontade de fazer sempre mais e melhor. Gosto de me desafiar constantemente, explorar novas técnicas, descobrir repertório diferente e superar os obstáculos que surgem no caminho.O que me dá energia é poder transformar todo esse esforço em música para as pessoas que me ouvem, seja nas aulas, nas audições de orquestra ou nos concursos a que me apresento. Cada oportunidade de tocar em público é também uma oportunidade de aprender, de crescer e de sentir a música de forma mais profunda. A paixão por comunicar através da flauta é o que me faz continuar a investir tempo e dedicação todos os dias.   Há algum professor ou mentor que a inspire especialmente, como o Jacques Zoon na Escuela Superior de Música Reina Sofía, ou outro que queira referir?Tenho sido muito inspirada por alguns professores que marcaram o meu percurso como o meu professor atual, Jacques Zoon. Contudo, a minha professora de flauta de toda a vida, a Prof. Solange Silva, ensinou-me não só técnica, mas também a importância de uma rotina de estudo e de criar consistência, algo que se tornou fundamental na minha evolução como musicista.O meu professor assistente, Salvador Martínez, primeira flauta da Orquestra de Valência, trouxe-me uma preparação orquestral enorme, ajudando-me a compreender melhor o trabalho dentro de uma orquestra, a comunicação com os colegas e a sensibilidade que a música coletiva exige.Sinto-me muito sortuda por aprender com professores assim, que não só ensinam a tocar, mas que também mostram como crescer como músico, a perseverar e a sentir a música de forma completa.   Se estivesse a aconselhar um jovem músico que aspira seguir os seus passos, que sugestões lhe daria?Se estivesse a aconselhar um jovem músico, diria que não existe uma fórmula mágica. Eu própria ainda estou a encontrar o meu caminho e os meus objetivos na música. Mas acho que é essencial manter-nos fiéis à nossa própria música e à nossa forma de tocar, mesmo quando surgem desafios.A resiliência é fundamental: temos de trabalhar muito, todos os dias, e não ter medo de tentar atingir objetivos ambiciosos. Quanto mais nos desafiamos, mais crescemos. E acima de tudo, é importante não perder a paixão pelo que fazemos, é essa paixão que nos mantém motivados e nos faz continuar a aprender e a evoluir.   Quais são os seus planos futuros – tournées, gravações, projetos novos?Neste momento, as coisas estão um pouco incertas. Estou a terminar a minha licenciatura em Madrid, a fazer provas de mestrado e também a apresentar-me a audições para academias e lugares de orquestra. É muita coisa ao mesmo tempo, e infelizmente nem sempre se consegue prever o que vai acontecer.O que sei é que estou a dar o meu máximo em todas estas oportunidades, a aprender com cada experiência e a manter-me aberta ao que vier, o foco é estar preparada, tocar o melhor possível e deixar que as oportunidades surjam naturalmente.   Para concluir, que mensagem gostaria de deixar ao público que assistirá a este extraordinário concerto "Ecos de Paris"? Gostaria que cada pessoa que estiver na plateia se deixe levar pela música, que se permita descobrir detalhes novos a cada frase e que saia com a sensação de ter vivido algo especial.   Obrigado, Madalena, pelas suas respostas tão sinceras e interessantes. Ficamos assim a conhecê-la um pouco melhor, o que aumenta o já muito elevado desejo e grande vontade em ir ouvi-la em concerto. Muito sucesso na sua carreira e que esta seja a primeira vez de muitas outras. Obrigado eu! Espero que o público goste da minha versão de Poulenc e que consiga sentir toda a delicadeza, o humor e a emoção que esta obra transmite. Para mim, é uma peça cheia de cor e surpresa, e tocar com a orquestra neste concerto vai ser uma experiência incrível.   Saiba mais sobre os concertos aqui.
Madalena Lopes, flauta solista no concerto "Ecos de Paris"
In Paradisum – A espiritualidade musical de Gabriel Fauré
10.02.2026
In Paradisum – A espiritualidade musical de Gabriel Fauré
Gabriel Fauré (1845–1924) é uma das figuras mais singulares da música francesa entre o romantismo tardio e o impressionismo. Nascido em Pamiers, no sul de França, recebeu formação na École Niedermeyer em Paris, onde foi aluno de Camille Saint-Saëns, que o introduziu à música contemporânea de Liszt e Wagner. Ao longo da sua carreira, Fauré foi organista na Igreja da Madeleine e diretor do Conservatório de Paris (1905–1920), influenciando uma geração de compositores, entre os quais Maurice Ravel e Nadia Boulanger. O seu estilo distingue-se por uma depuração harmónica excecional, um uso subtil de modos antigos (especialmente o modo frígio e o dórico), progressões cromáticas fluidas e uma rejeição deliberada do dramatismo exacerbado. Na música sacra, Fauré afasta-se da tradição romântica do Requiem grandioso e terrífico — como o de Berlioz ou Verdi — para oferecer uma visão serena e consoladora da morte. “A morte”, escreveu ele, “não me aterroriza; vejo-a como uma feliz libertação, uma aspiração à felicidade do além, mais do que como uma passagem dolorosa.” Esta conceção, profundamente pessoal e quase panteísta, faz da sua música sacra um veículo ideal para a introspeção quaresmal: um tempo de recolhimento, expiação e esperança à luz do calendário eucarístico. Este programa, concebido para assinalar o início da Quaresma, reúne três obras que exemplificam a evolução estilística de Fauré — da precocidade inspirada de grande rasgo do Cantique de Jean Racine à maturidade serena e não menos genial da Pavane e do Requiem. A interpretação pela Orquestra do Algarve, com direção de Pablo Urbina e participação de solistas de referência e do Coro Comunitário, privilegia a transparência tímbrica e a intimidade que o compositor tanto valorizava.   Pavane em Fá sustenido menor, op. 50 (1887) Composta no verão de 1887 em Paris, a Pavane foi originalmente concebida para orquestra pequena, com coro ad libitum (opcional) adicionado posteriormente a pedido da Condessa Greffulhe (que inspirou o personagem da Duquesa de Guermantes em Proust). Fauré descrevia-a como “uma peça simples, quase popular”, mas de expressiva sofisticação, revelada na harmonia modal e nas subtis ambiguidades tonais. A estrutura segue o modelo de uma pavane renascentista estilizada: um tema principal grave e elegíaco, apresentado pelos sopros sobre pizzicati das cordas, seguido de variações que mantêm a pulsação ritmicamente constante (6/8). A melodia inicial, de contornos descendentes, evoca uma melancolia aristocrática; as intervenções cromáticas — como o acorde de nona maior no final de cada frase — criam uma sensação de suspensão temporal. Quando presente, o coro entoa o texto poético de Robert de Montesquiou (“C’est Lindor, c’est Tircis et c’est tous nos amants”), que descreve figuras mitológicas dançando ao luar, reforçando o carácter evocativo e quase teatral da peça. Embora secular, a Pavane possui uma dimensão contemplativa que a torna o prelúdio ideal para o programa sacro: uma dança lenta que convida ao distanciamento do mundo, preparando o ouvinte para a meditação espiritual que se segue. A sua popularidade deve-se à capacidade de conjugar nostalgia intemporal com uma elegância depurada, qualidades que Fauré levaria à perfeição nas obras sacras posteriores.   Cantique de Jean Racine, op. 11 (1864–1865) Esta obra marca o primeiro triunfo público de Fauré. Composta aos 19 anos como exercício final na École Niedermeyer, venceu o primeiro prémio de composição e foi imediatamente publicada. Trata-se de uma paráfrase musicada do hino latino Consors paterni luminis de Jean Racine (1688), originalmente escrito para um concurso em Versailles. Estruturalmente, o Cantique é uma peça coral em Ré maior, com acompanhamento orquestral ou de harpa e órgão. Começa com uma introdução instrumental suave, seguida da entrada gradual do coro em bloco harmónico rico. A melodia principal, cantabile e ascendente, é sustentada por progressões harmónicas que se movem por graus conjuntos, criando uma sensação de fluidez quase impressionista — traço que antecipa Debussy. O ponto culminante ocorre no verso “qui la conduit à l’oubli de tes lois” (que a conduz ao esquecimento das tuas leis), onde a textura se expande em acordes mais amplos e luminosos, antes de regressar à tranquilidade inicial, para finalizar como que com um “Amen” na palavra “comblé” (repleto) em pianíssimo. Apesar da juventude do compositor, Cantique revela uma maturidade surpreendente: a devoção expressa não é teatral, mas interior e serena. A sua inclusão neste programa sublinha a continuidade estilística de Fauré — a mesma luminosidade modal e a mesma rejeição de efeitos exteriores que marcarão o Requiem duas décadas depois. É uma obra que atravessa gerações pela capacidade de transmitir uma espiritualidade pura, quase infantil, tocando profundamente quem a escuta.   Requiem em Ré menor, op. 48 (1887–1890; versão orquestral revista em 1900) O Requiem é a obra sacra mais identificativa de Fauré e uma das mais revolucionárias do género. Composto intermitentemente entre 1887 e 1890 — inicialmente após a morte do pai, e depois da mãe —, começou como peça para coro, solistas e órgão, sendo ampliado progressivamente. A versão orquestral completa data de 1900 e é a mais executada hoje. Fauré omitiu deliberadamente a sequência Dies irae e outros textos de terror exacerbado, centrando-se nos movimentos que evocam consolação, luz eterna e paraíso. “Tudo o que escrevi com intenção dramática foi para o teatro”, explicou ele; “este Requiem é como eu próprio concebo a morte.” A instrumentação privilegia a transparência: cordas em divisi, madeiras solistas e suaves, harpa e, ou órgão, sem trompetes estridentes ou timbales. A obra divide-se em sete movimentos, com duração aproximada de 35 minutos: 1. Introit et Kyrie – Início sereno em Ré menor, com o coro em pianíssimo sobre ostinato grave das violas. A súplica do Kyrie é tratada com delicadeza, sem angústia. 2. Offertoire – Introdução orquestral evocativa, seguida da entrada do barítono no Hostias, com uma melodia ampla e congregadora. O coro responde com um Amen que se expande em luminosas harmonias modais. 3. Sanctus – Um dos momentos mais etéreos da música coral, com as cordas e a harpa a criar toda uma atmosfera celestial; o Hosanna é jubiloso, mas sempre contido. 4. Pie Jesu – Ária para soprano solo, talvez a página mais célebre de toda a sua obra. A melodia simples e ascendente, acompanhada por órgão e cordas graves, evoca uma prece de pureza absoluta — “como uma criança que pede descanso”, nas palavras do compositor. 5. Agnus Dei – Retoma temas cíclicos do Introit, criando unidade formal. A transição para o Lux Aeterna é sublime, verdadeiramente místico, com harmonias que se dissolvem numa luz brilhante e incandescente. 6. Libera me – O único movimento com algum dramatismo (herdado de uma peça anterior escrita em 1877 para barítono e órgão), em que, mesmo aqui, o terror é suavizado pela serenidade identificativa do seu génio musical. O barítono solista expõe o texto com intensidade contida. 7. In Paradisum – Final etéreo, celestial e redentor em Ré maior. O coro feminino inicia em pianíssimo, sobre harpa e cordas, enquanto a melodia ascende gradualmente até uma visão de paradisíaca paz eterna — um dos finais mais consoladores da música sacra. A versão apresentada neste concerto, com a Orquestra do Algarve e Coro comunitário, respeita a intenção original de Fauré: intimidade em vez de grandiosidade, recolhimento em vez de histriónico. Neste contexto quaresmal, a visão da morte como “bálsamo para a alma” ressoa com particular profundidade, oferecendo não o medo do juízo final, mas a esperança serena na luz do paraíso.   Estas obras, unidas pela mesma sensibilidade depurada, proporcionam uma experiência de rara coerência estilística e espiritual. Num tempo de Quaresma, a música de Fauré lembra-nos que a verdadeira contemplação pode ser humana, luminosa e profundamente consoladora.     Rui Baeta, 10 de fevereiro de 2026
10.02.2026
In Paradisum – A espiritualidade musical de Gabriel Fauré
Gabriel Fauré (1845–1924) é uma das figuras mais singulares da música francesa entre o romantismo tardio e o impressionismo. Nascido em Pamiers, no sul de França, recebeu formação na École Niedermeyer em Paris, onde foi aluno de Camille Saint-Saëns, que o introduziu à música contemporânea de Liszt e Wagner. Ao longo da sua carreira, Fauré foi organista na Igreja da Madeleine e diretor do Conservatório de Paris (1905–1920), influenciando uma geração de compositores, entre os quais Maurice Ravel e Nadia Boulanger. O seu estilo distingue-se por uma depuração harmónica excecional, um uso subtil de modos antigos (especialmente o modo frígio e o dórico), progressões cromáticas fluidas e uma rejeição deliberada do dramatismo exacerbado. Na música sacra, Fauré afasta-se da tradição romântica do Requiem grandioso e terrífico — como o de Berlioz ou Verdi — para oferecer uma visão serena e consoladora da morte. “A morte”, escreveu ele, “não me aterroriza; vejo-a como uma feliz libertação, uma aspiração à felicidade do além, mais do que como uma passagem dolorosa.” Esta conceção, profundamente pessoal e quase panteísta, faz da sua música sacra um veículo ideal para a introspeção quaresmal: um tempo de recolhimento, expiação e esperança à luz do calendário eucarístico. Este programa, concebido para assinalar o início da Quaresma, reúne três obras que exemplificam a evolução estilística de Fauré — da precocidade inspirada de grande rasgo do Cantique de Jean Racine à maturidade serena e não menos genial da Pavane e do Requiem. A interpretação pela Orquestra do Algarve, com direção de Pablo Urbina e participação de solistas de referência e do Coro Comunitário, privilegia a transparência tímbrica e a intimidade que o compositor tanto valorizava.   Pavane em Fá sustenido menor, op. 50 (1887) Composta no verão de 1887 em Paris, a Pavane foi originalmente concebida para orquestra pequena, com coro ad libitum (opcional) adicionado posteriormente a pedido da Condessa Greffulhe (que inspirou o personagem da Duquesa de Guermantes em Proust). Fauré descrevia-a como “uma peça simples, quase popular”, mas de expressiva sofisticação, revelada na harmonia modal e nas subtis ambiguidades tonais. A estrutura segue o modelo de uma pavane renascentista estilizada: um tema principal grave e elegíaco, apresentado pelos sopros sobre pizzicati das cordas, seguido de variações que mantêm a pulsação ritmicamente constante (6/8). A melodia inicial, de contornos descendentes, evoca uma melancolia aristocrática; as intervenções cromáticas — como o acorde de nona maior no final de cada frase — criam uma sensação de suspensão temporal. Quando presente, o coro entoa o texto poético de Robert de Montesquiou (“C’est Lindor, c’est Tircis et c’est tous nos amants”), que descreve figuras mitológicas dançando ao luar, reforçando o carácter evocativo e quase teatral da peça. Embora secular, a Pavane possui uma dimensão contemplativa que a torna o prelúdio ideal para o programa sacro: uma dança lenta que convida ao distanciamento do mundo, preparando o ouvinte para a meditação espiritual que se segue. A sua popularidade deve-se à capacidade de conjugar nostalgia intemporal com uma elegância depurada, qualidades que Fauré levaria à perfeição nas obras sacras posteriores.   Cantique de Jean Racine, op. 11 (1864–1865) Esta obra marca o primeiro triunfo público de Fauré. Composta aos 19 anos como exercício final na École Niedermeyer, venceu o primeiro prémio de composição e foi imediatamente publicada. Trata-se de uma paráfrase musicada do hino latino Consors paterni luminis de Jean Racine (1688), originalmente escrito para um concurso em Versailles. Estruturalmente, o Cantique é uma peça coral em Ré maior, com acompanhamento orquestral ou de harpa e órgão. Começa com uma introdução instrumental suave, seguida da entrada gradual do coro em bloco harmónico rico. A melodia principal, cantabile e ascendente, é sustentada por progressões harmónicas que se movem por graus conjuntos, criando uma sensação de fluidez quase impressionista — traço que antecipa Debussy. O ponto culminante ocorre no verso “qui la conduit à l’oubli de tes lois” (que a conduz ao esquecimento das tuas leis), onde a textura se expande em acordes mais amplos e luminosos, antes de regressar à tranquilidade inicial, para finalizar como que com um “Amen” na palavra “comblé” (repleto) em pianíssimo. Apesar da juventude do compositor, Cantique revela uma maturidade surpreendente: a devoção expressa não é teatral, mas interior e serena. A sua inclusão neste programa sublinha a continuidade estilística de Fauré — a mesma luminosidade modal e a mesma rejeição de efeitos exteriores que marcarão o Requiem duas décadas depois. É uma obra que atravessa gerações pela capacidade de transmitir uma espiritualidade pura, quase infantil, tocando profundamente quem a escuta.   Requiem em Ré menor, op. 48 (1887–1890; versão orquestral revista em 1900) O Requiem é a obra sacra mais identificativa de Fauré e uma das mais revolucionárias do género. Composto intermitentemente entre 1887 e 1890 — inicialmente após a morte do pai, e depois da mãe —, começou como peça para coro, solistas e órgão, sendo ampliado progressivamente. A versão orquestral completa data de 1900 e é a mais executada hoje. Fauré omitiu deliberadamente a sequência Dies irae e outros textos de terror exacerbado, centrando-se nos movimentos que evocam consolação, luz eterna e paraíso. “Tudo o que escrevi com intenção dramática foi para o teatro”, explicou ele; “este Requiem é como eu próprio concebo a morte.” A instrumentação privilegia a transparência: cordas em divisi, madeiras solistas e suaves, harpa e, ou órgão, sem trompetes estridentes ou timbales. A obra divide-se em sete movimentos, com duração aproximada de 35 minutos: 1. Introit et Kyrie – Início sereno em Ré menor, com o coro em pianíssimo sobre ostinato grave das violas. A súplica do Kyrie é tratada com delicadeza, sem angústia. 2. Offertoire – Introdução orquestral evocativa, seguida da entrada do barítono no Hostias, com uma melodia ampla e congregadora. O coro responde com um Amen que se expande em luminosas harmonias modais. 3. Sanctus – Um dos momentos mais etéreos da música coral, com as cordas e a harpa a criar toda uma atmosfera celestial; o Hosanna é jubiloso, mas sempre contido. 4. Pie Jesu – Ária para soprano solo, talvez a página mais célebre de toda a sua obra. A melodia simples e ascendente, acompanhada por órgão e cordas graves, evoca uma prece de pureza absoluta — “como uma criança que pede descanso”, nas palavras do compositor. 5. Agnus Dei – Retoma temas cíclicos do Introit, criando unidade formal. A transição para o Lux Aeterna é sublime, verdadeiramente místico, com harmonias que se dissolvem numa luz brilhante e incandescente. 6. Libera me – O único movimento com algum dramatismo (herdado de uma peça anterior escrita em 1877 para barítono e órgão), em que, mesmo aqui, o terror é suavizado pela serenidade identificativa do seu génio musical. O barítono solista expõe o texto com intensidade contida. 7. In Paradisum – Final etéreo, celestial e redentor em Ré maior. O coro feminino inicia em pianíssimo, sobre harpa e cordas, enquanto a melodia ascende gradualmente até uma visão de paradisíaca paz eterna — um dos finais mais consoladores da música sacra. A versão apresentada neste concerto, com a Orquestra do Algarve e Coro comunitário, respeita a intenção original de Fauré: intimidade em vez de grandiosidade, recolhimento em vez de histriónico. Neste contexto quaresmal, a visão da morte como “bálsamo para a alma” ressoa com particular profundidade, oferecendo não o medo do juízo final, mas a esperança serena na luz do paraíso.   Estas obras, unidas pela mesma sensibilidade depurada, proporcionam uma experiência de rara coerência estilística e espiritual. Num tempo de Quaresma, a música de Fauré lembra-nos que a verdadeira contemplação pode ser humana, luminosa e profundamente consoladora.     Rui Baeta, 10 de fevereiro de 2026
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O gesto que faz música: Marta Kluczyńska e a geometria do som
Entrevista por Rui Baeta
    Olá, Marta! É realmente um prazer recebê-la em Portugal. A sua vinda ao Algarve traz consigo o prestígio da Ópera Real Polaca e uma energia vibrante que já sentimos no ar. Estamos entusiasmados com este encontro único entre a sua batuta, a flauta de Adriana Ferreira e o legado redescoberto de Louise Farrenc. Antes de entrarmos na atmosfera histórica da Igreja de Messines, para o primeiro concerto, gostaria de mergulhar na sua mente e explorar como molda o mundo invisível do som. Marta, imagine que a música é uma linguagem sem dicionário. Se tivesse de explicar a uma criança da plateia o que faz com as mãos para tornar o som da orquestra único, como descreveria esse “feitiço”? A música na sua forma mais elevada é a música tocada ao vivo. Cada concerto é único e irrepetível. De cada vez, uma obra é interpretada por músicos diferentes — e mesmo que sejam os mesmos, a interpretação nunca é idêntica. Cada vez a plateia e a acústica da sala são diferentes, e mesmo se fossem iguais, seria impossível reproduzir uma atuação exatamente da mesma forma. Tudo isto decorre no tempo, e uma vez ouvido um som, ele nunca mais regressa. O maestro é quem guia esta cerimónia irrepetível, gerindo o tempo e todos os outros elementos. Mas não existe um feitiço mágico que facilite esta tarefa. Através do conhecimento do compositor e da obra, do trabalho partilhado em ensaios com a orquestra e de uma visão do som final da peça, a tarefa do maestro é tornar este momento singular — quando a obra ganha vida — excecional e inesquecível.   O seu “lar” artístico é a Ópera Real Polaca, e colabora com o Ballet Nacional Polaco. Nesse mundo, a música serve frequentemente de palco ao movimento do corpo. Como é que essa experiência influencia a forma como dirige a Sinfonia n.º 1 de Louise Farrenc, que é música puramente instrumental? É uma excelente pergunta. A sinfonia de Louise Farrenc que vamos interpretar é, sim, música puramente instrumental, mas no estilo lembra frequentemente a música de bailado francesa daquela época. O segundo andamento da sinfonia, em particular, faz lembrar Giselle (um bailado composto exatamente no mesmo ano da Primeira Sinfonia de Farrenc — 1841) ou Le Corsaire de Adolphe Adam. Vou certamente usar essa associação no meu trabalho sobre a sinfonia.   Louise Farrenc foi uma “rebelde silenciosa” do século XIX. Quando dirige hoje a sua primeira sinfonia, sente que está a fazer uma forma de justiça histórica, ou trata a partitura como música pura, independentemente de ter sido escrita por uma mulher num mundo de homens? A música em si é sempre o mais importante — e esta obra é fascinante e merece ser apresentada hoje. E embora a música não tenha género, uma das minhas responsabilidades como maestra é cuidar e promover o legado das compositoras mulheres. Reviver música esquecida e colocá-la em diálogo com o público atual é uma das grandes áreas do meu trabalho como maestra.   O programa abre com Respighi. A Marta é da Polónia, vinda de um clima e paisagem diferentes, como se liga a esta “Serenata” italiana? É necessário ligar um interruptor emocional para dirigir música que parece tão solar e meridional? Solar e meridional, mas também impregnada de uma certa melancolia e saudade tão características da música eslava. Não nos esqueçamos de que Respighi também estudou em Berlim e São Petersburgo, por isso a sua linguagem musical bebe das conquistas composicionais de praticamente toda a Europa da época. A Serenata que vamos interpretar no concerto é uma bela miniatura que é difícil não amar, independentemente de que parte do mundo venhamos.   Mozart é muitas vezes descrito como “perfeito demais”. Nesta colaboração com Adriana Ferreira, onde procura a “imperfeição humana” ou a surpresa que impede que estas obras-primas (K.313 e K.373) soem como “peças de museu”? Não tenho medo de que Mozart soe a peça de museu na nossa interpretação. A sua música contém algo de perfeito e divino, mas permanece muito próxima da experiência humana. Atrai o ouvinte para um mundo de detalhes belos, incentivando a atenção a nuances subtis do som e a libertação da pressa do dia a dia. Adriana Ferreira é uma flautista excecional, e estou muito feliz por podermos tocar juntas.   A Igreja Matriz de São Bartolomeu de Messines não é uma sala de concertos convencional. O som viaja de forma diferente e demora a dissipar-se. Como negocia um maestro o tempo e o silêncio com as pedras antigas de uma igreja? E aqui temos um exemplo perfeito da singularidade da música ao vivo. Vamos interpretar o mesmo programa duas vezes, mas em dois locais diferentes. Já sei que serão noites completamente distintas. A Igreja Matriz de São Bartolomeu de Messines é, como todas as igrejas, também uma sala de concertos natural. No entanto, como tão bem disse, negociar com pedras antigas pode ser desafiante. Temos de nos adaptar a uma acústica diferente da do Teatro das Figuras (onde decorrerá o segundo concerto).   O concerto intitula-se “Adriana, Marta e Louise”. Se estas três mulheres se encontrassem para jantar depois do espetáculo, qual seria a pergunta que desesperaria por fazer a Louise Farrenc? Perguntar-lhe-ia porque nunca compôs uma ópera. Sei que queria fazê-lo, mas infelizmente nunca aconteceu. E depois de outro copo de vinho verde, mostrar-lhe-ia a direção em que a música se desenvolveu — tocar-lhe-ia algumas peças.   Dirigir é muitas vezes escutar. O que espera aprender com os músicos da Orquestra do Algarve durante esta estada, que a tornará melhor como maestra? É muito importante para mim, através do meu trabalho como maestra, poder conhecer pessoas interessantes e visitar muitos lugares diferentes pelo mundo. É a minha primeira vez em Portugal, e isso por si só já é uma experiência profunda. Através do meu trabalho aprendi a não esperar cenários específicos, mas a responder com abertura ao que a vida musical trouxer. Por isso, ainda não sei o que se revelará a experiência ou lição mais importante desta colaboração. Sei, no entanto, que o facto de a linguagem da música ligar pessoas que não partilham uma língua falada comum transporta uma mensagem poderosa no mundo de hoje.   Estes são concertos com um público local muito diversificado. Se alguém na plateia nunca viu um maestro de perto, em que momento específico deste programa de 65 minutos acha que sentirá que “o tempo parou”? Penso que a peça encantadora com que abriremos o concerto — a Serenata de Ottorino Respighi — transportará imediatamente o ouvinte para outro universo. Mas o tempo para verdadeiramente no segundo andamento do concerto para flauta de Mozart.   Marta, qual é a melhor “cor” da flauta quando se funde com a massa orquestral em Mozart? É luz pura, ou tem sombras? A beleza da música está na diversidade das suas cores. Gosto do som luminoso e nobre da flauta, mas também adoro o registo grave e profundo do instrumento. A música de Mozart associa-se a um som elegante e bem equilibrado. O que importa mais, no entanto, é transmitir uma mensagem emocional ao público, e esse objetivo é suficientemente importante para que eu imagine usar uma variedade de meios para o alcançar.   Para concluir: se pudesse levar um som ou uma sensação específica destes concertos no Algarve de volta para Varsóvia, qual seria? Espero que seja o som de um público satisfeito e o do oceano, do mar português.   Muito obrigada e toi toi toi para os concertos! (Alguma superstição?) Muito obrigada pela conversa encantadora. Não sou supersticiosa, mas, por via das dúvidas, faça figas.   Saiba mais sobre os concertos aqui.
29.01.2026
O gesto que faz música: Marta Kluczyńska e a geometria do som
Entrevista por Rui Baeta
    Olá, Marta! É realmente um prazer recebê-la em Portugal. A sua vinda ao Algarve traz consigo o prestígio da Ópera Real Polaca e uma energia vibrante que já sentimos no ar. Estamos entusiasmados com este encontro único entre a sua batuta, a flauta de Adriana Ferreira e o legado redescoberto de Louise Farrenc. Antes de entrarmos na atmosfera histórica da Igreja de Messines, para o primeiro concerto, gostaria de mergulhar na sua mente e explorar como molda o mundo invisível do som. Marta, imagine que a música é uma linguagem sem dicionário. Se tivesse de explicar a uma criança da plateia o que faz com as mãos para tornar o som da orquestra único, como descreveria esse “feitiço”? A música na sua forma mais elevada é a música tocada ao vivo. Cada concerto é único e irrepetível. De cada vez, uma obra é interpretada por músicos diferentes — e mesmo que sejam os mesmos, a interpretação nunca é idêntica. Cada vez a plateia e a acústica da sala são diferentes, e mesmo se fossem iguais, seria impossível reproduzir uma atuação exatamente da mesma forma. Tudo isto decorre no tempo, e uma vez ouvido um som, ele nunca mais regressa. O maestro é quem guia esta cerimónia irrepetível, gerindo o tempo e todos os outros elementos. Mas não existe um feitiço mágico que facilite esta tarefa. Através do conhecimento do compositor e da obra, do trabalho partilhado em ensaios com a orquestra e de uma visão do som final da peça, a tarefa do maestro é tornar este momento singular — quando a obra ganha vida — excecional e inesquecível.   O seu “lar” artístico é a Ópera Real Polaca, e colabora com o Ballet Nacional Polaco. Nesse mundo, a música serve frequentemente de palco ao movimento do corpo. Como é que essa experiência influencia a forma como dirige a Sinfonia n.º 1 de Louise Farrenc, que é música puramente instrumental? É uma excelente pergunta. A sinfonia de Louise Farrenc que vamos interpretar é, sim, música puramente instrumental, mas no estilo lembra frequentemente a música de bailado francesa daquela época. O segundo andamento da sinfonia, em particular, faz lembrar Giselle (um bailado composto exatamente no mesmo ano da Primeira Sinfonia de Farrenc — 1841) ou Le Corsaire de Adolphe Adam. Vou certamente usar essa associação no meu trabalho sobre a sinfonia.   Louise Farrenc foi uma “rebelde silenciosa” do século XIX. Quando dirige hoje a sua primeira sinfonia, sente que está a fazer uma forma de justiça histórica, ou trata a partitura como música pura, independentemente de ter sido escrita por uma mulher num mundo de homens? A música em si é sempre o mais importante — e esta obra é fascinante e merece ser apresentada hoje. E embora a música não tenha género, uma das minhas responsabilidades como maestra é cuidar e promover o legado das compositoras mulheres. Reviver música esquecida e colocá-la em diálogo com o público atual é uma das grandes áreas do meu trabalho como maestra.   O programa abre com Respighi. A Marta é da Polónia, vinda de um clima e paisagem diferentes, como se liga a esta “Serenata” italiana? É necessário ligar um interruptor emocional para dirigir música que parece tão solar e meridional? Solar e meridional, mas também impregnada de uma certa melancolia e saudade tão características da música eslava. Não nos esqueçamos de que Respighi também estudou em Berlim e São Petersburgo, por isso a sua linguagem musical bebe das conquistas composicionais de praticamente toda a Europa da época. A Serenata que vamos interpretar no concerto é uma bela miniatura que é difícil não amar, independentemente de que parte do mundo venhamos.   Mozart é muitas vezes descrito como “perfeito demais”. Nesta colaboração com Adriana Ferreira, onde procura a “imperfeição humana” ou a surpresa que impede que estas obras-primas (K.313 e K.373) soem como “peças de museu”? Não tenho medo de que Mozart soe a peça de museu na nossa interpretação. A sua música contém algo de perfeito e divino, mas permanece muito próxima da experiência humana. Atrai o ouvinte para um mundo de detalhes belos, incentivando a atenção a nuances subtis do som e a libertação da pressa do dia a dia. Adriana Ferreira é uma flautista excecional, e estou muito feliz por podermos tocar juntas.   A Igreja Matriz de São Bartolomeu de Messines não é uma sala de concertos convencional. O som viaja de forma diferente e demora a dissipar-se. Como negocia um maestro o tempo e o silêncio com as pedras antigas de uma igreja? E aqui temos um exemplo perfeito da singularidade da música ao vivo. Vamos interpretar o mesmo programa duas vezes, mas em dois locais diferentes. Já sei que serão noites completamente distintas. A Igreja Matriz de São Bartolomeu de Messines é, como todas as igrejas, também uma sala de concertos natural. No entanto, como tão bem disse, negociar com pedras antigas pode ser desafiante. Temos de nos adaptar a uma acústica diferente da do Teatro das Figuras (onde decorrerá o segundo concerto).   O concerto intitula-se “Adriana, Marta e Louise”. Se estas três mulheres se encontrassem para jantar depois do espetáculo, qual seria a pergunta que desesperaria por fazer a Louise Farrenc? Perguntar-lhe-ia porque nunca compôs uma ópera. Sei que queria fazê-lo, mas infelizmente nunca aconteceu. E depois de outro copo de vinho verde, mostrar-lhe-ia a direção em que a música se desenvolveu — tocar-lhe-ia algumas peças.   Dirigir é muitas vezes escutar. O que espera aprender com os músicos da Orquestra do Algarve durante esta estada, que a tornará melhor como maestra? É muito importante para mim, através do meu trabalho como maestra, poder conhecer pessoas interessantes e visitar muitos lugares diferentes pelo mundo. É a minha primeira vez em Portugal, e isso por si só já é uma experiência profunda. Através do meu trabalho aprendi a não esperar cenários específicos, mas a responder com abertura ao que a vida musical trouxer. Por isso, ainda não sei o que se revelará a experiência ou lição mais importante desta colaboração. Sei, no entanto, que o facto de a linguagem da música ligar pessoas que não partilham uma língua falada comum transporta uma mensagem poderosa no mundo de hoje.   Estes são concertos com um público local muito diversificado. Se alguém na plateia nunca viu um maestro de perto, em que momento específico deste programa de 65 minutos acha que sentirá que “o tempo parou”? Penso que a peça encantadora com que abriremos o concerto — a Serenata de Ottorino Respighi — transportará imediatamente o ouvinte para outro universo. Mas o tempo para verdadeiramente no segundo andamento do concerto para flauta de Mozart.   Marta, qual é a melhor “cor” da flauta quando se funde com a massa orquestral em Mozart? É luz pura, ou tem sombras? A beleza da música está na diversidade das suas cores. Gosto do som luminoso e nobre da flauta, mas também adoro o registo grave e profundo do instrumento. A música de Mozart associa-se a um som elegante e bem equilibrado. O que importa mais, no entanto, é transmitir uma mensagem emocional ao público, e esse objetivo é suficientemente importante para que eu imagine usar uma variedade de meios para o alcançar.   Para concluir: se pudesse levar um som ou uma sensação específica destes concertos no Algarve de volta para Varsóvia, qual seria? Espero que seja o som de um público satisfeito e o do oceano, do mar português.   Muito obrigada e toi toi toi para os concertos! (Alguma superstição?) Muito obrigada pela conversa encantadora. Não sou supersticiosa, mas, por via das dúvidas, faça figas.   Saiba mais sobre os concertos aqui.
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